Dois membros da Comissão de Trabalhadores (CT) dos Estaleiros de Viana demitiram-se, alegando discordâncias em relação à forma como aquele órgão tem lidado com o processo de encerramento da empresa desde a intervenção do movimento sindical.

Aquele órgão representativo dos trabalhadores contava com sete elementos efetivos mas, numa carta dirigida à Direção de Recursos Humanos da empresa, Luís Morais, um desses membros, formalizou a demissão.

«Não posso continuar, nem tenho condições, para estar num órgão onde não se respeitem as decisões realizadas por maioria», lê-se na carta assinada por Luís Morais, à qual a Lusa teve acesso, referindo-se ao plenário de 27 de janeiro, realizado nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC).

Nessa reunião, os trabalhadores aprovaram, com dois votos contra e quatro abstenções, uma moção autorizando o movimento sindical a encetar contactos com a administração do novo subconcessionário, o grupo Martifer, e com o Ministério da Defesa.

Por seu turno, os elementos da CT reúnem-se hoje com o secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, acusando estes representantes sindicais, que negociaram com a tutela um novo plano social para a empresa, de não seguirem as orientações da intersindical.

Em causa estão encontros mantidos pelos dirigentes da União de Sindicatos de Viana do Castelo (USVC) e do Sindicato dos Metalúrgicos, afetos à CGTP-IN, para tentar minimizar o impacto social do fecho dos ENVC.

«Nós, trabalhadores, ficámos completamente estupefactos com a atitude dos dirigentes sindicais nas reuniões que eles tiveram com o ministro da Defesa», afirmou na quarta-feira o coordenador da CT dos ENVC, António Costa.

Além de Luís Morais, também Paulo Peres, outro membro efetivo da CT, pediu a demissão nos últimos dias, mas esta é a única demissão confirmada pelo coordenador daquele órgão, recordando que o trabalhador também deixou as funções de delegado sindical.

Confrontado pela Lusa, António Costa disse apenas que a CT mantém seis dos sete elementos efetivos, insistindo que os representantes sindicais foram «legitimados» para «simples reuniões de abordagem» e «não negociações como as que se vieram a concretizar».

Já Branco Viana, coordenador da USVC e que nos últimos dias tem liderado estes contactos, recorda que a intervenção sindical resultou de uma moção aprovada em plenário de trabalhadores com «toda a transparência».

«Fomos mandatados pelos trabalhadores para o fazer e esta posição só demonstra que o senhor António Costa não aceita a democracia dentro da empresa. Não é por acaso que dois membros da CT já se demitiram», acusou Branco Viana.

Entretanto, o plano social lançado pela administração dos estaleiros, no âmbito do encerramento da empresa e do despedimento dos 609 trabalhadores, acaba de ser revisto e prolongado até 21 de fevereiro, incorporando sugestões apresentadas pelos representantes sindicais.

Estes «desenvolvimentos», de acordo com António Costa, serão discutidos em Lisboa, esta quinta-feira, com o secretário-geral da CGTP-IN e com os serviços jurídicos da intersindical, estando convocado para segunda-feira novo plenário de trabalhadores, a realizar na empresa.

«Deixámos bem claro que a CT está aqui para lutar pelos direitos dos trabalhadores e pela manutenção dos estaleiros no setor empresarial do Estado», enfatizou António Costa.