Todos os anos, o programa Inov Contacto ajuda centenas de jovens a fazer estágios no estrangeiro. Este ano são 300, vão ser distribuídos por 42 países, e estão agora a fazer as malas. A TVI foi à procura de jovens que já passaram pela experiência. Todos nos disseram que valeu a pena e que quem está a pensar nisso, o melhor mesmo é parar de pensar e ir de uma vez.

O programa é promovido pelo Aicep e apoiado por fundos comunitários. Os candidatos não escolhem o destino...as empresas de acolhimento são-lhes destinadas de acordo com a área de formação e o potencial de desenvolvimento que lhes oferecem. Pelo menos, é esse o plano. Mas as coisas nem sempre correm como planeado...

Ana Esteves, 28 anos, calhou-lhe em sorte fazer o estágio na Sands China, uma rede de casinos e resorts de luxo em Macau. E sorte é mesmo a palavra. Depois da licenciatura, recusou uma proposta de trabalho para poder ir à aventura, e não se arrependeu. «O estágio correu bem, no final dos seis meses, fizeram-me uma proposta de trabalho, e acebei por ficar três anos em Macau», conta.

Colocada no Departamento de Recursos Humanos, na equipa de formação e desenvolvimento, admite que foi mais fácil integrar-se porque, nesse mesmo ano, foram mais 27 jovens para o mesmo destino. «Mesmo assim, e apesar de Macau ter um bocadinho de Portugal, também tem muito da China, fica do outro lado do mundo e o choque cultural foi muito grande», recorda.

A forma diferente de viver e de trabalhar obrigou a uma adaptação. «A primeira vez que o meu diretor arrotou numa reunião de trabalho, fiquei um pouco chocada. Mas aquilo para eles é a coisa mais natural do mundo… às tantas habituei-me», exemplifica. «Outra coisa peculiar é que os chineses me pediam a toda a hora para tirar fotografias comigo, como se eu fosse uma celebridade. Às vezes eram as mulheres que me vinham pedir para eu tirar fotografias com os maridos delas. E eu achava aquilo tudo muito estranho», ri.



Bem diferente foi a experiência de Diogo Faro, também de 28 anos. Participou no mesmo ano de 2011, quando embarcou para a Bulgária. «Não correu bem como eu estava à espera. Sou formado em Publicidade e Marketing e fui para uma empresa de manga, banda desenhada japonesa. Aquilo era editado em francês e o meu trabalho consistia em traduzir para espanhol, português e inglês. Não tinha nada a ver com a minha área».

Mas o melhor (ou não…) estava para vir. «Aquilo era banda desenhada online, não era paga, não havia publicidade no site, e eu estranhei não haver receita. Uma vez estava a almoçar com os meus colegas e perguntei de onde vinha o dinheiro», lembra. Lá lhe contaram que a empresa fazia dinheiro era a gerir sites pornográficos. A banda desenhada era apenas uma fachada e o Inov nunca soube de nada. «Tive pena, porque nunca cheguei a trabalhar nessa área», brinca.

«Desenvolvi as línguas e ganhei outras competências, por isso não foi tempo perdido. Agora, não foi exatamente o que eu esperava profissionalmente». Faz questão de dizer que sempre foi muito bem tratado e se deu muito bem com os colegas de trabalho. «No final ainda me perguntaram se eu gostava de ficar. Eu respondi que gostava muito deles, mas não era aquilo que eu queria profissionalmente», conta.


Raquel Ferreira, 23 anos, também não começou com o pé direito quando aterrou em Cabo Verde, em 2014. Ao início foi colocada numa empresa onde o trabalho nada tinha a ver com a sua área de formação e onde passava o dia inteiro sozinha. «Liguei para o Inov e expliquei que não tinha sido para aquilo que tinha ido. Ou arranjavam uma solução, ou eu voltava para Portugal. A equipa do Inov foi impecável, em menos de uma semana já tinha uma nova empresa de acolhimento».

Foi para a Btoc, uma consultora, onde se aventurou a enfrentar o trabalho que menos gostava dentro da sua área: a contabilidade. E a vida virou-se-lhe do avesso. «Era para ficar dois meses, acabei por ficar cinco meses a fazer contabilidade. Apaixonei-me pela contabilidade e agora quero fazer um mestrado nessa área», admite.

Raquel Ferreira adaptou-se facilmente a Cabo Verde e aos cabo-verdianos. «São um povo genuíno, sincero, aberto. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, ir para aquele país e estar com aquelas pessoas».


Mas nem só de trabalho se faz uma experiência no Inov Contacto. No tempo que passaram no estrangeiro houve também tempo para se divertirem. E como! Basta ver as fotos.

«Fiz muitos amigos, viajei muito. A vantagem de estar em Macau é que facilmente se apanha um avião para Tailândia, Vietname, Camboja…». E Ana apanhou-os todos, e mais alguns.


Diogo também viajou, mas de carro. «Estava ali no Leste da Europa, fui muitas vezes à Roménia, fui à Sérvia, Croácia, Montenegro… do ponto de vista pessoal, compensou mesmo muito, foi incrível». Nós acreditamos que sim.

Raquel também percorreu a Ilha de Santiago e até subiu ao vulcão, na Ilha do Fogo. Diz que esteve para desistir a meio mas o guia lá a ia aliciando com a vista, que seria brutal. «Quando lá cheguei, fiquei furiosa. Era um buraco, com mensagens, e eu pensei ‘É isto?!’».

«O melhor foi conviver com as pessoas, estar naquele ambiente onde é tudo tão diferente. Por exemplo, eu fazia questão de ir às discotecas típicas, com aquela música deles».


E a nível profissional, deu ou não frutos? Para a Raquel, sim. «A nível profissional, uma experiência internacional tem muito valor, mostra que estamos dispostos a estar em contacto com outras realidades e que somos flexíveis. Em todas as entrevistas de trabalho que fui desde que voltei, valorizaram muito essa experiência».

«Eu ainda não fiz mestrado, só tenho licenciatura. Isso hoje em dia toda a gente tem, é a experiência internacional que me distingue. Se eu não tivesse tido a experiência internacional, provavelmente hoje estava desempregada, porque há muita gente a concorrer para os mesmos anúncios, e muitas têm mais qualificações», resume. «Mas mesmo a nível pessoal é muito bom, para abrir horizontes».


Ao fim de três anos em Macau, as saudades (tão portuguesas) começavam a pesar e Ana entendeu que não tinha muito mais espaço para crescer naquela empresa. «Mas depois de Macau, de ter passado pelas peripécias todas que passei naquele local tão diferente, é muito mais fácil meter-me noutra aventura. Tirei um ano sabático, andei a viajar e estive na Índia, a fazer voluntariado, quatro meses e meio. A maior lição que tiramos destas experiências é que somos capazes de tudo».

Agora está em Portugal, mas ainda não sabe se quer ficar. «Quando estamos longe da nossa zona de conforto, é tudo mais intenso, vive-se a mil. E fica sempre aquele bichinho da adrenalina, de voltar a ir para um sítio diferente».

Raquel também está a trabalhar há seis meses numa empresa em Portugal mas também não deve ficar por aqui. «Estou aqui mas não me sinto bem cá. Sou portuguesa, gosto muito de Portugal, mas essa experiência fez com que eu queira andar pelo mundo fora».


Só Diogo está de pedra e cal. Desde que voltou trabalhou em duas agências, mas acabou por ser o sentido de humor que lhe deu emprego. É humorista, sensivelmente idiota, (não somos nós que o dizemos) tem um blog e faz espetáculos de stand up.

Perguntámos aos três se valeu a pena. Nem hesitam. Se fosse hoje, iam outra vez.