As empresas de chocolate estão preocupadas com a concorrência dos produtos provenientes de Espanha, vendidos em Portugal a preços mais baixos, indicou o secretário-geral da ACHOC, associação do setor.

«O que prejudica hoje em dia os operadores que estão no mercado português é que há uma natural tendência para alguns pequenos distribuidores irem nos seus carros a Espanha e carregarem uma ou duas toneladas de chocolate para procurarem vender cá», referiu Manuel Barata Simões, que representa a ACHOC-Associação dos Industriais de Chocolates e Confeitaria, em entrevista à Lusa.


De acordo com este responsável, na origem desta prática está a diferença na fiscalidade entre os dois países, uma vez que em Portugal o chocolate é taxado com IVA a 23%, quando em Espanha o mesmo imposto é de 10%.

A associação acredita que os produtos de chocolate deveriam ser taxados com um IVA mais reduzido, uma vez que desta forma pagam «a mesma taxa que os produtos de luxo», apesar de serem « um produto alimentar».

«Deveriam ser reduzidos para a escala intermédia, como acontece em Espanha», defendeu Barata Simões.


Por outro lado, atualmente o Estado não aufere de quaisquer receitas fiscais do chocolate proveniente do mercado espanhol, uma vez que «esses pequenos retalhos acabam por não incluir nada nas suas contabilidades», acrescentou.

Ao não receber nem IVA nem IRC sobre esses produtos, o Estado « acaba por ser duplamente prejudicado», sublinhou o secretário-geral da associação.

Muitas vezes o chocolate que chega desta forma a Portugal nem sequer é espanhol, mas sim de marcas que estão presentes também em território português, mas taxadas com impostos superiores.

No entanto, não é apenas o chocolate que pequenos comerciantes vão buscar a Espanha que preocupa as empresas portuguesas do setor. Hoje em dia, mantém-se o problema dos sucedâneos não rotulados, embora já em menor escala, indicou o responsável.

De acordo com a legislação portuguesa e comunitária, produtos que não incluam os ingredientes que estão oficialmente aprovados para fazerem parte de um chocolate, como a manteiga de cacau, têm obrigatoriamente de ser identificados como sucedâneos.

«Com alguma frequência, é trazido de Espanha produto que é, de facto, um sucedâneo, mas que não é devidamente rotulado. No sabor não se nota muito, nota-se depois na composição», detalhou Manuel Barata Simões, acrescentando que esses produtos são quase sempre vendidos em feiras, mas que a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) pratica ações de fiscalização.


Portugal importa atualmente mais de 70% dos produtos acabados de chocolate que são consumidos no mercado interno. Em contrapartida, também se vende para o estrangeiro, até porque as empresas portuguesas gostam de diversificar os mercados de destino, acrescentou o responsável, referindo que o caso mais representativo é o da Imperial, que « exporta para mais de 40 países».
 

Vendas de chocolate devem crescer 4% em 2014 


A mesma associação, ACHOC, espera que as vendas de chocolate cresçam 4% em 2014 face ao ano anterior, repetindo a tendência de 2013, apesar do efeito negativo da crise sobre outros produtos.

 «Vemos que há uma retração generalizada do consumo, mas nas vendas de chocolate tem havido até um crescimento», notou o secretário-geral Associação de Industriais de Chocolates e Confeitaria.

Em Portugal, as vendas deste produto representam cerca de 200 milhões de euros.

Barata Simões prevê também que «os números serão interessantes», até devido ao efeito da crise sobre os hábitos de compras para a época, sendo que «o chocolate já é uma boa alternativa a outras prendas de Natal mais sofisticadas e mais caras».

A época natalícia é a mais importante para o setor, uma vez que só por si representa entre 35 a 40% do consumo anual deste produto, calcula a associação.

Em conjunto, Natal e Páscoa têm um peso de 60% para a quantidade de chocolate que é consumido durante o ano todo.

O secretário-geral da associação aponta a mudança nos hábitos alimentares como outra causa para este comportamento positivo do setor.

«Acreditamos que haja famílias que, em vez de dar dinheiro às crianças para comerem no intervalo das aulas, preferem dar-lhes uma pequena barra de chocolate para a meio da manhã ou da tarde complementarem o seu lanche», exemplificou.

A associação tem apostado em promover o chocolate como um « produto alimentar» e « um bom complemento de refeição», que tem benefícios para a saúde quando consumido de forma moderada, acrescentou o representante da ACHOC.

As mudanças no mercado português estendem-se ainda ao lado dos fabricantes. Nos últimos anos tem-se assistido ao fabrico de produtos mais elaborados, ao aparecimento de pequenas lojas especializadas em chocolates, como já sucedia noutros países europeus, e também à renovação de marcas tradicionais, referiu.

Barata Simões sublinhou que, no entanto, os portugueses continuam a ser o povo que menos chocolate consome ‘per capita’ dentro da Europa, cerca de 1,5 quilos por pessoa ou talvez um pouco mais, tendo em conta as pequenas lojas cujos dados não estão contabilizados pela associação. Em Espanha, o consumo é de 3,5 quilos por pessoa, chegando aos nove quilos na Alemanha, por exemplo.

Fora da Europa, é na China e na Índia que atualmente se concentram as atenções do setor, uma vez que o número de consumidores nestes países está a aumentar, afirmou.

«O consumo da China é cerca de 5% do consumo europeu. Se compararmos em termos de população, está a ver o potencial de crescimento incrível que temos pela frente. Isto leva a pensar que temos de aumentar também a produção de matérias-primas, neste caso do cacau», afirmou.


O representante admite também que têm ocorrido «alguns problemas com a produção», a nível mundial, o que poderá ter efeitos no preço do cacau, mas acredita que tudo irá resolver-se.

Em causa estão problemas com pragas, instabilidade política na Costa do Marfim, um dos maiores produtores, e também agricultores que optaram por outras colheitas.

«Os preços mais altos vão levar a que os produtores que passaram para outros produtos voltem à produção de cacau», assegurou, acrescentando que tenderá a estabilizar.