O Banco de Portugal pede pés bem assentes na terra aos bancos. O supervisor da banca mostra alguma preocupação relativamente ao crédito fácil, um perigo em que o sistema poderá cair com a retoma económica a que estamos a assistir. Apesar de assinalar os "progressos" que Portugal tem conseguido alcançar, o supervisor da banca alerta que o país e os bancos continuam a enfrentar uma série de "vulnerabilidades". 

"A recuperação da atividade económica, a recente dinâmica observada no mercado imobiliário e a maior concorrência entre bancos poderá criar incentivos à adoção de critérios de concessão de crédito menos restritivos". Ou seja, poderá haver a tentação de dar crédito mais facilmente. Lembra-se do que aconteceu em 2007/2008 com a crise do subprime? É esse o receio do Banco de Portugal.

Poderão existir incentivos à colocação no mercado de retalho de instrumentos financeiros cujas características não sejam convenientemente percebidas pelos clientes ou desadequadas às suas necessidades, mas que permitam às instituições financeiras recuperar rendibilidade e transferir riscos do seu balanço".

As taxas de juro de curto prazo deverão continuar em mínimos históricos, o que causa "pressão sobre a rendibilidade do setor financeiro e possíveis incentivos à tomada excessiva de risco". O mercado antecipa que o aumento das taxas venha a acontecer lá mais para 2019.

Riscos mantêm-se apesar da retoma

A advertência, por antecipação, consta no Relatório de Estabilidade Financeira deste mês de junho e surge para que os bancos não entrem numa espiral que poderá comportar quer "riscos de conduta" quer "riscos de reputação".

A economia está a crescer (o PIB aumentou 2,8% no primeiro trimestre, segundo o INE) e o Banco de Portugal destaca que se perspetiva "também uma melhoria entre 2017 e 2019", ancorada num enquadramento externo mais favorável. Mas o país - e os bancos - têm de ter noção de que ainda há riscos políticos e económicos a nível mundial que podem vir a abanar estas previsões otimistas.

A instituição liderada por Carlos Costa quer, portanto, que os bancos não entrem na ilusão de que está tudo resolvido ou, pelo menos, bem encaminhado. E justifica porquê, enumerando os problemas: "elevado endividamento dos setores público e privado domésticos, conjugado com:

  • baixo crescimento potencial
  • significativo volume de ativos não produtivos no balanço das instituições de crédito
  • sensibilidade da carteira de crédito dos bancos a variações das taxas de juro de referência
  • significativa concentração de exposições dos setores bancário e segurador a títulos de dívida pública portuguesa e ao setor imobiliário".

Basicamente, os riscos para a estabilidade financeira mantêm-se. 

O que fazer?

O Banco de Portugal defende que é preciso continuar a controlar custos do Estado e a reduzir a dívida. Isso ajudará a baixar o custo de financiamento tanto do Estado como das empresas.

Torna-se essencial a continuação de uma trajetória de consolidação orçamental que conduza à redução sustentada da dívida pública, contribuindo para melhorar a perceção global dos mercados financeiros em relação aos emitentes residentes".

Ao mesmo tempo, também é necessário levar a cabo políticas de apoio ao crescimento e competitividade porque também são "promotoras da sustentabilidade da dívida".

Recorde-se que a dívida pública continua em máximos: em abril, alcançou 247,4 mil milhões de euros, mais 3,9 mil milhões de euros do que o registado no final de março.

Como ontem veio também avisar o Conselho de Finanças Públicas, Portugal saiu do Procedimento por Défice Excessivo (por ter conseguido um défice abaixo de 3% do PIB em 2016), mas "o problema não está resolvido, a dívida continua lá".

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