O Banco de Portugal (BdP) está preocupado com os efeitos das medidas do Orçamento do Estado para 2014 no aumento do incumprimento dos empréstimos bancários pelas famílias.

O Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado esta terça-feira pela instituição, refere que apesar dos sinais de recuperação dados pela economia este ano, há ainda um «elevado grau de incerteza» quanto à evolução desta, assim como a evolução do desemprego, o que a somar-se às medidas previstas no Orçamento para 2014 - que cortam o rendimentos dos reformados e funcionários públicos - coloca riscos sobre o sistema financeiro nacional, com impacto no aumento do crédito malparado.

«Estes desenvolvimentos podem ter impacto negativo sobre a procura interna e, assim, dificultar a recuperação do emprego, com eventual reflexo no número de famílias que possam vir a confrontar-se com a impossibilidade de garantir os compromissos de créditos assumidos», lê-se no documento hoje publicado pela instituição liderada por Carlos Costa.

O crédito malparado dos particulares tem continuado a aumentar, sobretudo nos empréstimos ao consumo e outros fins, tendência que se verifica desde 2008. Já quanto ao incumprimento no crédito à habitação, segundo o Banco de Portugal, tem-se verificado uma «evolução mais moderada» e este está em «níveis contidos».

No caso das empresas, o Banco de Portugal mostra-se preocupado com o endividamento destas, num momento de baixa rendibilidade ou mesmo prejuízos. Também aqui o BdP vê riscos de persistência ou mesmo aumento do incumprimento e da incapacidade de as empresas conseguirem financiamento para projetos devido ao já elevado nível de endividamento, pelo que volta a sublinhar a necessidade de diversificação das fontes de financiamento.

O Relatório de Estabilidade Financeira hoje divulgado pelo Banco de Portugal refere que o rácio de incumprimento das empresas atingiu no final do primeiro semestre «níveis máximos desde o início da área do euro», com 30% das empresas em situação de incumprimento.

O documento refere ainda que este rácio era em junho do dobro dos 15% registados no início da crise financeira, em 2008. Quanto ao montante de crédito, o rácio de credito malparado era em junho de cerca de 12% dos empréstimos totais obtidos pelas empresas.

Os setores da construção, sobretudo, mas também imobiliário e comércio são os que mais contribuem para o malparado.