Quase mil médicos que estavam com licença sem vencimento de longa duração exerciam, no final de 2012, funções como contratados nas mesmas ou outras instituições de saúde, segundo o relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS), escreve a Lusa.

De acordo com a IGAS, na sequência de uma auditoria do Tribunal de Contas, a tutela determinou à Administração Central de Sistemas de Saúde (ACSS) que fizesse um «levantamento de todos os casos em que tenham sido atribuídas licenças sem vencimento de longa duração a médicos que, na sequência das autorizações, tenham sido contratados pela mesma ou por outra unidade de saúde do SNS, seja por contratos individuais de trabalho, seja por aquisição de serviços médicos».

O relatório preliminar da ACSS, datado de 30 de abril de 2013, concluiu que existiam 983 médicos nesta situação, em vigor a 31 de dezembro de 2012.

O tema das acumulações de funções foi tornado prioritário pela tutela, que pediu, juntamente com a ACSS, a intervenção da IGAS.

Da articulação do trabalho entre a IGAS e a ACSS sobre esta matéria resultaram, em 2014, 27 processos disciplinares e cinco inquéritos, além de outras situações participadas aos serviços.

O relatório da IGAS, relativamente a 2013, a que a Lusa teve acesso, revela ainda que 150 médicos dos cuidados de saúde primários, com as remunerações (globais) mais elevadas, ganharam 16,67 milhões de euros em 2012, ainda assim, menos 2,7 milhões (14%) do que em 2011 (anos em que receberam 19,4 milhões de euros).

No que respeita apenas ao trabalho extradordinário/suplementar, os mesmos médicos auferiram em 2012 sete milhões de euros, o que traduz uma diminuição de 1,25 milhões de euros face a 2011 (menos 15%).

«Apesar disso, as evidências decorrentes dos esclarecimentos prestados revelam que, contrariamente ao que devia suceder, a fundamentação/justificação que devia suportar a realização de trabalho extraordinário remunerado que ultrapassa um terço da remuneração principal ou é inexistente, insuficiente ou pouco clara e esclarecedora», sublinha a IGAS.

Relativamente à ação disciplinar, foram tramitados, em 2013, 326 processos, a maioria dos quais inquéritos (127) ou processos disciplinares (122).

No total dos processos de natureza exclusivamente disciplinar, 29 (cerca de 24%) foram concluídos com a aplicação de uma pena, a maioria deles associada a irregularidades relacionadas com acumulação indevida de funções, conflito de interesses, cobrança indevida de taxas moderadoras, irregularidades na prescrição de medicamentos/MCDT (meios complementares de diagnóstico) ou com a falsificação de documentos.

Destas 29 penas disciplinares aplicadas, duas tiveram natureza expulsiva, estando um dos casos associado a fraude na prescrição de medicamentos.

O relatório dá ainda conta da inexistência de controlo nos centros de saúde sobre as prescrições de medicamentos por exceção, constatando-se até casos de médicos que prescreveram a mesma medicação para o mesmo utente invocando, de cada vez, diferentes exceções.

A IGAS aponta também a inexistência ou insuficiência de registos dos utentes e das suas patologias, a quem foram passadas receitas de medicamentos de marca invocando exceções.

Alguns médicos e as unidades onde estavam integrados tinham indicadores de prescrição de remédios de marca, relativos a meses homólogos de 2012 e 2013, «superiores à média nacional ou do ACES, indiciando em alguns casos uma certa prevalência pela prescrição de medicamentos de marca sem justificação pertinente».

A IGAS detetou uma diminuição nas reclamações registadas no livro amarelo das instituições de saúde, acompanhada em parte pelo decréscimo da atividade assistencial, entre 2011 e 2012, de 48.833 para 46.628.

Destas, 5% não foram registadas no sistema, sobretudo nos ACES. Das registadas em 2011, 6% não foram respondidas, valor que sobe em 2012 para os 9%.