O mais recente plano que o Governo tem na manga é a recuperação dos emigrantes. No entanto, será que quem saiu à procura de melhores condições de vida – trabalho e salários – está agora disposto a voltar?

O primeiro passo foi dado esta quinta-feira, com a aprovação em Conselho de Ministros do Plano Estratégico para as Migrações (2015-2020) e o programa denomina-se ‘Valorização do Empreendedorismo Emigrante’. A abreviatura é «VEM», mas será que eles querem mesmo vir?

A TVI falou com algumas pessoas que emigraram em busca de uma luz - mais brilhante - ao fundo do túnel. Diferentes pessoas, diferentes idades, diferentes profissões e diferentes países, mas uma coisa em comum: pelo menos por enquanto, o desejo de ficar por lá.

Bruno Abrantes, 28 anos, programador de software e na Alemanha há cerca de quatro meses. Longe, mas atento, Bruno olha para a proposta do Governo como ‘um pau de dois bicos’: «Embora a ideia me pareça interessante, a implementação concreta deixa a desejar. Para mim a parte mais interessante da medida recai na fomentação à criação de empresas, mas os valores propostos são extremamente baixos. 10-20 mil euros por projeto não permitem criar projetos sérios, na minha opinião», explicou à TVI.

Num país onde, diz por experiência própria, que «os salários praticados são bastante mais altos que em Portugal», ainda enaltece que, na Alemanha, tem «acesso a uma quantidade maior de empresas e mais relevantes» para a sua área e é por isso que não se sente aliciado em voltar.

«Não me alicia de todo a voltar. Encontro-me neste momento a pensar seriamente em criar uma empresa, e, embora ter sede em Portugal tenha algumas vantagens (criar uma empresa é de facto muito fácil), os programas governamentais que existem na Alemanha destinados à criação de startups são muito mais vantajosos. O acesso a investimento privado é também muito maior e mais facilitado», refere.

 
Na mesma linha, Ana Maria Oliveira, 30 anos, vive há praticamente dois anos em Belfast, na Irlanda do Norte e é responsável de marketing para a Europa na multinacional Concentrix. Tal como Bruno e todos os emigrados, Ana valoriza «as oportunidades de carreira não existentes em Portugal ou só reservadas para alguns», ao mesmo tempo que valoriza «o reconhecimento e a meritocracia», explicou à TVI.

Esta jovem emigrante também não vê nesta proposta do Governo uma alavanca para voltar porque «não é uma medida abrangente»:

«A meritocracia e as oportunidades de carreira não são algo que se possa mudar com uma lei, e um problema de mentalidade e responsabilidade com o trabalho».

«De qualquer forma, se a medida puder ajudar alguns, muito bem», enfatizou.


Também falámos com Bruno Pedro, que é engenheiro informático e tem 41 anos. Emigrou para Barcelona e está fora de Portugal desde agosto de 2011. Diz que este «não será o programa que fará com que a maior parte dos emigrantes portugueses regressem a Portugal. Em primeiro lugar, o apoio que poderá existir a empresas que contratem portugueses desempregados no estrangeiro terá que competir com os apoios a desempregados nos países de acolhimento. Já o apoio à criação de empresas em Portugal poderá funcionar, dependendo do conteúdo desse mesmo apoio».
 
Mais uma vez, a resposta «D»:

«Sinceramente, não me alicia voltar. Emigrar é um investimento pessoal que deverá ser considerado a longo prazo. Voltar a Portugal neste momento seria desistir do projeto que me fez sair do país em primeiro lugar».

 
Por fim, o depoimento de João Pedro Marques, de 34 anos, está em Macau há cerca de sete anos e é jornalista. Em relação à ação do Governo «não tenho dúvidas de que a intenção é boa». No entanto destaca que é importante haver um fator de naturalidade quando se toca na emigração.

«Acho que assim como as pessoas saíram naturalmente, só voltarão naturalmente também. Ou seja, quando encontrarem oportunidades interessantes no país, ou acharem que podem ter bom retorno se investirem. Isso vai acontecer quando a economia estiver realmente melhor. Todos queremos isso e esperamos que venha a acontecer tão depressa quanto possível. Resta saber quando»


No entanto, não acredita «que as pessoas regressem por causa destes incentivos. Em todo o caso, é melhor haver alguns incentivos do que não haver nenhum. Nesse sentido, acho que a iniciativa é boa»
 
Portugueses espalhados pelo mundo

Com mais de dois milhões de portugueses emigrados e segundo os dados mais recentes, disponíveis no ‘Relatório Emigração 2013’, no portal das Comunidades Portuguesas, a maioria das saídas em 2013 – 74.322 indivíduos ou 58% do total - correspondem a emigrantes temporários, que saíram por um período superior a três meses, mas inferior a um ano. Os emigrantes chamados permanentes, que saíram por um período igual ou superior a um ano, correspondem a 41,9% ou 53.786 indivíduos.

Os países eleitos pelos portugueses são: Luxemburgo, Suíça, Brasil, Angola e Reino Unido.