O economista dominicano Miguel Ceara declarou à Lusa que a solução europeia para resolver a crise de dívida está a «varrer a população», considerando que «o que está a acontecer é uma deterioração das condições de vida das pessoas».

Miguel Ceara comentava, em declarações à agência Lusa, o relatório «A cautionary tale: The true cost of austerity and inequality in Europe» ('Um conto moral: o verdadeiro custo da austeridade e da desigualdade na Europa'), hoje publicado pela Oxfam, em que a organização alerta para que, se prosseguirem as medidas de austeridade na Europa, podem cair em situações de pobreza mais de 15 a 25 milhões de pessoas até 2025.

Especialista nas crises económicas da América Latina nas décadas de 1980 e 1990, Miguel Ceara disse que «os programas de ajustamento estrutural condenam as populações a maiores níveis de pobreza e de precariedade e não se consegue uma reestruturação da economia».

«Pode-se sair da crise mantando os pobres, mas essa não é a ideia. O que está a ocorrer na Europa é deteriorar as condições de vida das pessoas, literalmente. É óbvio que, se a economia cai durante uma década ou duas, há uma recuperação depois, mas essa transição implica que muita gente perda recursos e criam-se desigualdades», explicou.

Reiterando que «o objetivo das economias é que as pessoas vivam bem e não que os bancos sejam mais ricos», o também antigo diretor do programa de desenvolvimento das Nações Unidas na República Dominicana reconheceu que há um problema de dívida para resolver, mas defendeu que a solução não pode condenar a qualidade de vida das pessoas.

«A solução [que a Europa encontrou] foi comprimir a economia até a um ponto em que se gere um excedente para pagar a dívida. Mas isso significa que se está a varrer a população e esse é o erro: condenar um país a 15 ou 20 anos de precariedade. Há que fazer uma negociação e conseguir que parte dessa dívida seja perdoada», considerou.

No entanto, alertou que tudo isto «depende das relações de força» política, uma vez que, «tecnicamente, está muito claro que a solução que alguns grupos de poder mais forte na Europa escolheram [para resolver a crise atual] condena a população».

Comparando a situação atual da Europa com a da América Latina na década de 1980, Miguel Ceara identificou duas diferenças fundamentais que fazem com que a situação europeia seja «mais difícil»: a Europa «não pode desvalorizar a moeda» e, na altura [1980], os países latino-americanos tinham «um cenário internacional menos rígido».

Isto quer dizer que hoje, sem política cambial e com um cenário mundial que também está em crise, a Europa está numa situação «mais difícil» do que estava a América Latina nos anos 1980 e 1990, uma vez que tem de «fazer todo o ajustamento do lado do consumo e da procura interna».

No relatório hoje divulgado, a Oxfam refere que «a Europa devia aprender duas lições importantes com as crises de dívida anteriores noutras regiões: que uma dívida insustentável é uma dívida impagável, que exige um processo de arbitragem justo e transparente que possa incluir uma reestruturação alargada ou o cancelamento da dívida, e que quanto mais cedo a espiral de crescimento da dívida for atacada pelos Estados-membros e pela União Europeia melhor».

A organização fundada em 1995 faz ainda quatro recomendações aos governos europeus: investir nas pessoas e no crescimento económico, investir nos serviços públicos, reforçar a democracia institucional e construir sistemas fiscais justos.