O ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, considera que o único país “dos três grandes” entre Reino Unido, França e Alemanha que tem “valorizado” a União Europeia é esta última. O também ex-primeiro-ministro português defende ainda o papel de Portugal no espaço europeu.

“Quando os principais acionistas desvalorizam a sua sociedade, cai o valor das ações dessa sociedade. É que se está passar”, referiu o ex-responsável da Comissão, citado pela Lusa, ao intervir numa sessão no Estoril em torno dos desafios da UE e os resultados e consequência do referendo britânico, organizada pelo Estoril Political Forum e o Instituto de estudos políticos da Universidade Católica, em associação com o International Forum for Democratic Studies (Washington DC).

“Dos três grandes países o único que tem no essencial valorizado a UE tem sido a Alemanha, nomeadamente a chanceler Merkel, com quem trabalhei, e verifiquei que ela investia na UE. Esse ponto é essencial”

Já o Reino Unido “tem sistematicamente desvalorizado a UE”, colocando o agora demissionário primeiro-ministro britânicos David Cameron numa situação paradoxal, por ser “muito difícil, apesar da sua qualidade e esforços, em dois meses dizer o contrário do que andou a dizer 20 anos”.

“O primeiro-ministro Cameron andou 20 anos a atacar a UE e queria convencer os ingleses em dois meses de que a UE era uma coisa boa”

 

Angela Merlel e David Cameron (Reuters)

Frisou também que o resultado do referendo de quinta-feira sobre o Brexit “necessita de uma análise sociológica e política do voto”.

As críticas foram extensíveis à França, o país que juntamente com a Holanda provocou a primeira crise institucional no mandato de Durão Barroso, ao rejeitarem por referendo o Tratado Constitucional, antes da crise ucraniana e do início da vaga de imigrantes e refugiados.

“Disse isto ao Presidente Chirac quando foi o referendo em França. Não podes atacar a Europa de segunda a sábado e dizer às pessoas para votarem na Europa no domingo”

Uma questão central que o ex-responsável da Comissão Europeia insistiu em recordar: "a minha sinceridade tem aumentado cada dia que passa, não por contradição com o que dizia antes, mas porque estou mais à vontade”.

“O mesmo se passa em França, com outro tipo de euroceticismo, porque a França em vez de querer uma França europeia está talvez a querer uma Europa francesa, e continua sistematicamente a criticar a UE, mas pelas razões opostos do Reino Unido”.

"Não há que ter complexos de ser pequeno"

Nesta radiografia do “Estado da União”, uma referência outros países do bloco mais pequenos, onde incluiu Portugal.

“Também tem a sua palavra a dizer porque a maioria dos países são de dimensão igual ou inferior a Portugal. Não há que ter complexos de ser pequeno. Portugal e os outros países têm de ver a UE não como uma potência externa mas como eles sendo parte ativa da UE. Se continuarmos sistematicamente a usar a UE como bode expiatório não vamos a lado nenhum”.

Na perspetiva do ex-chefe de Governo e antigo dirigente do PSD, o maior risco para a União Europeia, na sequência do resultado do referendo de quinta-feira no Reino Unido que vai implicar a saída do país do espaço comunitário, é a desintegração, e as tentativas em “criar um precedente” para novas deserções.

“Por isso estou convencido que os líderes mais responsáveis da União, e temos de contar sobretudo com a senhora Merkel, que hoje em termos de liderança é o ponto de equilíbrio essencial na UE, vão procurar minimizar riscos e procurar formas de consenso para que a União se mantenha e reforce mesmo sem a presença do Reino Unido”

Durão Barroso centrou a atual crise na esfera essencialmente política, e estabeleceu comparações. “Nenhum projeto político tem sucesso se os seus principais acionistas não investem nele. E o que se passa na UE essencialmente é isto. Os principais acionistas, em vez de investirem na sua sociedade são os primeiros a desvalorizar a sua sociedade”, referiu perante uma plateia composta sobretudo por académicos, diplomatas e estudantes.

“Se continuarmos a europeizar os fracassos e a nacionalizar os sucessos, como fazem os políticos nacionais na maioria parte dos casos, quando as coisas vão bem é o êxito deles, quando vão mal a culpa é de Bruxelas, esquecendo-se ou escondendo às pessoas que as decisões foram tomadas por eles em Bruxelas, mas foram eles que as tomaram"

E ao recuperar alguns dos momentos dos quais foi protagonista, recordou: “As decisões em relação ao euro foram tomadas por unanimidade em todos os Estados-membros. Mas depois vêm para as suas capitais dizer que têm de questionar Bruxelas, de fazer referendos contra Bruxelas”.

O principal problema da UE

No decurso de uma intervenção com mais de 20 minutos, à qual se seguiu um período de questões e uma declaração final, o ex-chefe do governo português definiu o “problema essencial da UE” como um “sentimento de pertença, de responsabilidade”, sem deixar de admitir uma “quota-parte de responsabilidade” das instituições europeias, que por vezes “mostram um estranho alheamento em relação à realidade dos cidadãos nos seus países, vivendo quase num mundo à parte”.

Mas precisou que o cerne do problema não reside na questão institucional. “Não é com mais medidas institucionais nem com mais tratados que se vai resolver o problema. É um problema político, que exige da parte dos responsáveis a nível nacional um comprometimento verdadeiro com o projeto europeu”.

Durão Barroso disse detetar neste “compromisso” uma oportunidade. “Espero que haja inteligência e sentido de responsabilidade suficientes para que os líderes europeus agora em vez de avançarem para situação de ressentimento ou de revanchismo, em vez de avançarem para o pessimismo e negativismo, procurarem encontrar o que pode ser a base para um novo acordo político positivo para a Europa, em vez de sistematicamente procurarem desvalorizar as instituições europeias”.

O rescaldo da votação do referendo, que implicou uma crise política interna em Londres com resultados ainda imprevisíveis, voltou a dominar o final da intervenção.

“Como se verificou agora com o primeiro-ministro britânico, quando se ataca a Europa normalmente acaba-se mal. Disse-lhe, eu e Merkel, quando resolveu sair do Partido Popular Europeu, que era um erro enorme, que ia criar um fenómeno progressivo de afastamento do centro da UE, em que cada vez mais o partido conservador britânico se iria identificar com o UKip", salientou, referindo-se ao partido eurocético, xenófobo e anti-imigração liderado por Nigel Farage.

"Foi o que aconteceu exatamente. Um erro que lhe custou caro, e custou a todos nós na Europa. Temos de mitigar os efeitos negativos e valorizar aquilo que podemos fazer em conjunto”