Os trabalhadores de empresas com maior taxa de sindicalização chegam a ganhar mais de 30% que os de empresas com menos trabalhadores sindicalizados, segundo um estudo do Banco de Portugal hoje divulgado.

«Os trabalhadores sindicalizados beneficiam de um muito significativo prémio sindical», concluem os economistas do Banco de Portugal, Pedro Portugal e Hugo Vilares, que assinam o estudo «Sobre os sindicatos, a sindicalização e o prémio sindical» divulgado esta terça-feira juntamente com o Boletim Económico de Inverno do Banco de Portugal.

Nas empresas com fortes níveis de sindicalização, «este prémio atinge valores superiores a 30%, quando é estabelecida a comparação com trabalhadores não sindicalizados com as mesmas características observadas e que operam nos mesmos setores de atividade e regiões».

O prémio sindical é convencionalmente medido como o diferencial de remuneração auferida por um trabalhador em ambientes de trabalho mais sindicalizados, face a um trabalhador com idênticas características em ambientes de trabalho menos sindicalizados.

Ainda assim, os autores referem que a «evidência» deste prémio «não permite, por si só, estabelecer um nexo de causalidade entre poder sindical e salários». Isto porque os sindicatos localizam-se «preferencialmente em empresas com políticas mais generosas de salários e tendem a privilegiar empregadores mais permeáveis às reivindicações sindicais».

Por outro lado, segundo o mesmo documento, o poder negocial dos sindicatos traduz-se em ganhos salariais «de forma não-linear» uma vez que «até que a taxa de sindicalização atinja 25%, o prémio sindical é quase nulo».

Mas, «a partir deste valor, o prémio regista um incremento muito significativo [de 29,19% para taxas de sindicalização entre os 25% e os 50%] até atingir o seu valor máximo entre 60 e 80% de sindicalização, mantendo-se a partir daí em valores elevados».

Estes dados alteram-se se a comparação for feita entre trabalhadores do mesmo setor de atividade, da mesma região e com características semelhantes.

Incluindo estas variáveis, a diferença salarial entre os que trabalham em ambientes mais sindicalizados e os restantes varia: para ambientes com taxas de sindicalização até 25%, a diferença salarial é de apenas 2,08%, mas nos casos de taxas de sindicalização superiores, a diferença salarial chega a atingir 31,66%.

Outra conclusão dos autores é que a taxa de sindicalização era, em 2010, de cerca de 11%, tendo-se assistido a «uma forte erosão da representação sindical», e que a presença sindical «é mais significativa nas empresas de maior dimensão, em empresas de capital público e em setores de atividade protegidos da concorrência».

Por exemplo, nas empresas dos setores da banca e seguros e de eletricidade e energia, as taxas de sindicalização são de 63,80% e 60,46%, respetivamente, valores que caem para os 1,44% nas atividades imobiliárias e para os 2,86% na construção.

Numa análise por dimensão da empresa, as que têm até quatro trabalhadores têm uma taxa de sindicalização inferior a 1%, ao passo que as que têm 500 trabalhadores ou mais contam com uma taxa de 30,1%.

Os economistas do Banco de Portugal analisaram cerca de 200.000 empresas para avaliar a influência da atividade sindical no mercado de trabalho português, tendo como base os registos individuais do Relatório Único de 2010.

Para o estudo foram considerados mais de dois milhões de trabalhadores empregados por conta de outrem no continente, que trabalham a tempo inteiro, com idades entre os 16 e os 65 anos, excluindo os da administração pública, da agricultura, produção animal, caça, floresta, pesca e as atividades dos organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais.