A crise política não afetou as exportações da Ucrânia, principal fornecedor de milho a Portugal, mas agravou os custos logísticos, o que pode refletir-se nos preços da alimentação animal e encarecer a carne e os ovos.

Na perspetiva do especialista em mercado de cereais, Paulo Costa e Sousa, «esta crise política não afetou em nada as exportações», mas se o conflito piorar será «dramático».

«Se a crise se agravar e houver um conflito, obviamente que para nós é dramático, mas até agora as exportações continuaram a subir: em dezembro, as exportações da Ucrânia superaram os três milhões de toneladas, o que é um recorde absoluto», sublinhou, lembrando que Portugal depende fortemente da Ucrânia em termos da importação de milho (80 a 85% do total).

Embora o ritmo de exportação não tenha abrandado, «a logística interna complicou-se um pouco», encarecendo o produto.

«Para que o milho chegue aos portos precisa de sair do centro da Ucrânia. Estamos a falar de distâncias consideráveis e de logísticas consideráveis», explicou, estimando que os preços tenham subido entre 10 a 15% desde janeiro.

Este efeito vai fazer-se sentir nas indústrias transformadoras, que farão incidir o impacto da subida das matérias-primas no seu produto final, e será sentido pelo consumidor na compra de produtos como a carne ou os ovos que poderão ficar mais caros.

Paulo Costa e Sousa ressalvou, no entanto, que «o padrão de compra português permite ter um colchão porque, normalmente, o mercado português faz compras em diferido e, por isso, o milho que está a receber agora foi comprado há oito ou dez meses».

Tal não quer dizer que o produtor «não tente passar ao mercado essa mais-valia de ter comprado bem», o que o mesmo responsável considera ser «perfeitamente legítimo», porque «se deve posicionar a preços de mercado».

Questionado sobre a possibilidade de Portugal alcançar a auto suficiência no que respeita ao milho, cuja produção tem vindo a aumentar, o especialista da Louis Dreyfus Commodities considera que tal objetivo é «difícil», senão impossível: «nós importamos um milhão e meio de toneladas e produzimos, nos anos bons, 400 mil (...) Teríamos de produzir sensivelmente três vezes mais».

Quanto ao trigo, maioritariamente fornecido por França e usado na panificação, seria ainda «mais difícil» produzir em grandes quantidades, por falta de «aptidão» agrícola.

«Em termos de cereais, a aposta no milho parece-me mais lógica do que a do trigo», sublinhou Paulo Costa e Sousa.