Podia ser um jogo de lotaria, pelas palavras utilizadas, mas é mesmo uma convicção firme de que vai acertar: Silva Peneda, que foi consultor especial do presidente da Comissão Europeia e agora desempenha essa função informalmente, aposta que não vai haver sanções para Portugal.

Muitos podem pensar que a aplicação de sanções "dá credibilidade" à Comissão, mas Peneda diz que não e pensa que Jean-Claude Juncker estará de acordo: "Porque eu sei que o Presidente da Comissão não aceitará isso. É uma convicção minha. Podia apostar 100 contra 1!", disse em entrevista à Antena 1.

Também o economista Luís Campos e Cunha espera o mesmo, embora alerte que os portugueses "não podem sempre chegar atrasados" e que o país tem de "ter cuidado".

Em entrevista à Lusa, o antigo ministro das Finanças do primeiro governo socialista de José Sócrates, destaca que as regras europeias normalmente têm "alguma flexibilidade e não sendo o mecanismo "completamente automático", mas sim com "possibilidade política", é possível que o país escape à penalização. 

"Todos esperamos que não haja sanções e a decisão vai ser uma decisão bastante política certamente. É evidente que os portugueses têm de perceber que não podem sempre chegar atrasados. Existem regras europeias que nós votámos favoravelmente e, portanto, espero que não haja, estou confiante que não vai haver, estou convencido de que não vai haver [sanções], mas temos de ter cuidado para o próximo ano"

A ameaça que paira sobre Portugal tem que ver com o facto de o défice orçamental ter ficado nos 4,4% em 2015, acima do limite dos 3% definido pelas regras europeias e que o país deveria ter alcançado para sair do Procedimento dos Défices Excessivos.

CGD

Voltando à entrevista de Silva Peneda à rádio pública, ele discorda da Comissão Parlamentar de inquérito à Caixa imposta por PSD e CDS. Sem o apoio de todos os partidos, "normalmente [uma comissão assim] transforma-se numa chicana parlamentar, preferia uma auditoria forense porque tenho dúvidas acerca da eficácia dos resultados do inquérito".

Certo é "que algo vai mal no sistema financeiro, tem que se antecipar e tem que se pensar muito bem que tipo de supervisão é feita". 

"Em 7 anos, quatro bancos falidos: BPN, BPP, BES, BANIF... e agora CGD, que se não for recapitalizada passa dificuldades".

Sobre o mesmo assnto, Campos e Cunha defende que a CGD "não pode ser um braço político" dos Governos, considerando que "a Caixa foi relativamente imune aos ciclos políticos" até 2002 mas que, desde então, houve "situações estranhas". Sempre defendeu "uma Caixa Geral Depósitos [CGD] pública", mas que "isso não é um princípio sacrossanto".

"A CGD tem de ser gerida e bem gerida, não pode ser um braço político, não se pode politizar a concessão de crédito da CGD. Tudo isto leva a que provavelmente também tenhamos algumas consequências para a CGD que sejam mais particulares dessa instituição", afirmou o economista, salvaguardando no entanto que está "ligado a um banco privado", o Santander, e que, como tal, há questões a que não deve responder.

"Houve algum distanciamento dos governos face à gestão da Caixa e isso é bom. Em 2002, não... com Ferreira Leite [como ministra das Finanças] e depois com o engenheiro José Sócrates [como primeiro-ministro] a situação foi ainda mais estranha"

Sublinhando que "nos bancos as asneiras e os maus negócios pagam-se cinco anos depois", Campos e Cunha diz que "não é de estranhar que passado uns anos as coisas venham a aparecer".

Em relação à criação da comissão de inquérito, afirma que "quando um problema bancário cai na praça pública dificilmente se consegue resolver". Prestar contas e dar justificações aos contribuintes "é necessário", mas isso tem de ser feito "depois de o problema estar resolvido" para não penalizar a reputação do banco.

Geringonça

Já Campos e Cunha, na entrevista à Lusa, foi questionado sobre o atual quadro político em Portugal, em que o Governo socialista de António Costa conta com o apoio parlamentar dos partidos da esquerda. Reconhece que "há o risco de [o executivo] ter de optar ou pelo apoio dos partidos à esquerda ou por cumprir com as obrigações com que Portugal se comprometeu ao nível europeu".

"O Governo até agora tem sido bastante explícito dizendo que quer viver dentro do quadro legal da comunidade europeia. É preciso que os partidos que estão à esquerda também percebam que o PS sempre foi um partido europeu".

O ex-governante diz estar agora mais confiante do que estava inicialmente: "A estabilidade para quatro anos é mais provável do que eu próprio pensei no início por dois fenómenos".

Por um lado, "porque de facto António Costa é um grande negociador e é capaz de conseguir fazer a quadratura do círculo nalguns problemas mais complicados" e, por outro, "porque, se os partidos da extrema-esquerda deitarem abaixo este Governo, provavelmente vem um governo à direita e poderão ser culpados de termos um governo bem mais à direita do que este".

Para Campos e Cunha, "esta ameaça pode ser suficiente para que eles [os partidos de esquerda, nomeadamente o PCP, o BE e Os Verdes] se vão distanciar aqui e acolá mas sempre em questões de pormenor", mas quanto às "questões fundamentais que podiam pôr em causa a sobrevivência do Governo eles se vejam na contingência sempre de apoiar o Governo".