O que é que a banca tem a ver com as ex-colónias? Para João Salgueiro, há termo de comparação. O ex-ministro das Finanças entende que a gestão dos problemas da banca nacional fazem lembrar aqueles que ocorreram com a descolonização. Isto porque, alerta, há decisões que o país pode ter de pagar durante décadas.

No final de uma audiência com o Presidente da República, João Salgueiro defendeu que devem ser decididas “a tempo" soluções para os problemas dos bancos nacionais, para não as deixar para Bruxelas: “Tem de ser feita antes de entregar em mão” às instâncias europeias. Aqui, criticou  nomeadamente a solução encontrada para o Banif.

“O custo de entregar [às instâncias europeias] é muito grande. Podemos imaginar vários tipos de problemas que existem [na banca] que têm de ser resolvidos a tempo. É uma situação muito semelhante à da descolonização. Se não se encontram as soluções a tempo, vamos pagar o custo durante décadas”.

O mais recente caso Banif faz o também ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos advertir que é “realmente importante” que os portugueses tomem consciência do que se está a passar, lembrando que a solução encontrada para o banco foi “pouco” explicada e que é "estranho" que Banco de Portugal, Governo e Bruxelas tenham posições diferentes sobre o assunto, cita a Lusa. 

“Também os custos dizem que foram aqueles, mas podiam não ter sido. E a transparência não foi muito grande”

Por que razão acontecem problemas deste género em Portugal? A sua teoria: “Porque nós somos distraídos". “A opinião pública tem 80% de interesse pelo que se passa no futebol, 10% pelo resto do desporto e restam 10% para o resto dos problemas” do país.

Ainda no início deste mês, João Salgueiro fez um alerta, nas suas palavras "intencional", sobre o facto de três bancos portugueses estarem com problemas. 

Quanto à audiência com o Presidente da República, João Salgueiro considerou que Marcelo Rebelo de Sousa “está muito bem informado do que se passa”.

Também comentou o adiamento por um ano do procedimento por défice excessivo (que exige uma meta inferior a 3% do PIB) para Portugal decidido hoje pela Comissão Europeia

"Parece-me bem que se dê tempo ao Governo português para ter uma estratégia consistente" 

O antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos salientou também como positivo que Bruxelas dê a Portugal tempo para se venderem bancos "por um valor justo", sem precisar a qual dos bancos se estaria a referir.

João Salgueiro também é antigo vice-governador do Banco de Portugal, ex-ministro das Finanças e ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos. Foi hoje recebido por Marcelo Rebelo de Sousa, em representação de um grupo de economistas e gestores, promotores do manifesto Reconfiguração da Banca em Portugal – Desafios e Linhas Vermelhas.