O Governador do Banco de Portugal considerou hoje que os bancos que optem pela estratégia de reduzir mais rapidamente o elevado volume de crédito malparado serão beneficiados quer na sua rentabilidade quer na perceção dos investidores face à sua situação.

Numa conferência sobre banca e o futuro do dinheiro, em Lisboa, Carlos Costa considerou que os bancos vivem hoje um “dilema” entre acelerar a redução de ativos problemáticos (em que se destaca o crédito malparado), no que podem ser ajudados pelo momento favorável do mercado imobiliário mas que também pode requerer mais capital, ou optar por um “modelo gradual de redução” desses ativos problemáticos, mas em que manterão menores taxas de rendibilidade e continuarão a ter alguma “desconfiança” do mercado em relação aos seus balanços.

Além disso, afirmou, os bancos que prefiram uma redução mais gradual do crédito malparado poderão vir a ser abrangidos por agravamento das exigências de regulação, que a nível europeu está cada vez mais atenta a este tema.

Este é o dilema com que estão confrontados os gestores dos bancos e acionistas. Ou apostam em absorver no presente o custo de aceleração de redução de ativos problemáticos ou optam pela outra solução e ficam numa situação mais constrangida em termos de crescimento e perceção de mercado”, afirmou o governador, na conferência "Banca & Seguros: O Futuro do Dinheiro", organizada pelos meios TSF e Dinheiro Vivo e pelas Iberinform Crédito y Caución e Sage.

Bancos dizem que “obsessão” com malparado condiciona crédito a empresas

Os administradores do BCP e da CGD consideraram hoje que as regras sobre crédito malparado estão a condicionar a concessão de empréstimos, nomeadamente às empresas.

Na conferência o vice-presidente do BCP, Miguel Maya, considerou que as regras sobre malparado e a agenda apertada de redução ativos problemáticos tem um impacto negativo na concessão de crédito empresarial, uma vez que empresas que cumpriam as obrigações com os bancos, mas que tiveram necessidade de reestruturar a dívida pela situação de crise do país não podem durante um tempo ter novo crédito.

Assim, segundo o responsável, por vezes “os empresários têm razão” quando se queixam da falta de crédito dos bancos.

Cerca de um terço dos NPE [exposições "não produtivas" em inglês, sobretudo crédito malparado] são de empresas que estão a pagar aos bancos as suas prestações, mas que reestruturaram a dívida por causa das dificuldades que país viveu e agora quando vão bater à porta dos bancos, os bancos dizem economicamente faz sentido, mas como estão marcados não podemos conceder”, explicou.

Para Miguel Maya, que foi escolhido pelos maiores acionistas do BCP para suceder a Nuno Amado como presidente executivo do banco, decisão que será tomada na assembleia-geral de 30 de maio e que ainda terá de passar no crivo do Banco Central Europeu, “com esta agenda de redução apertada de NPE esses empresários não vão conseguir encontrar empréstimos na banca”.

Também José João Guilherme, administrador da CGD, considerou que “esta obsessão é muito condicionante da concessão de crédito”.

Ainda assim, ambos os administradores consideraram que a maioria dos empréstimos que são recusados pelos bancos a empresas deve-se à falta de condições destas na avaliação de risco feita pelas entidades de crédito.