O crédito ao consumo tem vindo a recuperar e os novos financiamentos bateram máximos já este ano, apesar de o total de empréstimos dos bancos a particulares estar no nível mais baixo desde 2007.

No final de junho, segundo dados do Banco de Portugal, o 'stock' do crédito a particulares era de 121,663 mil milhões de euros, o valor mais baixo desde agosto de 2007. Apenas face a maio, a queda foi de 513 milhões de euros.

Por setor, o crédito à habitação fixou-se em 99,984 mil milhões de euros, também o valor mais baixo em oito anos, e os 9.817 milhões de euros dos empréstimos para outros fins representaram mínimos desde 2004.

O único setor que contrariou esta tendência foi o crédito ao consumo, que desde o mínimo de 11,762 mil milhões de euros, registado em maio de 2014, tem estado a recuperar, ainda que com altos e baixos. Em junho, o ‘stock’ total de crédito ao consumo era de 11.962 milhões de euros.

Esta recuperação no crédito ao consumo é confirmada pelos dados referentes aos novos contratos de financiamento, que indicam que os portugueses voltaram a recorrer aos bancos para comprar bens a crédito.

Segundo o Banco de Portugal, só em junho foram celebrados mais de 106 mil créditos ao consumo, num total de 409,382 milhões de euros emprestados. Este valor significa um aumento homólogo de 21,5% e mais 3% face a maio.

Cerca de um terço do dinheiro emprestado em junho foi destinado à compra de carro, no total de 150,484 milhões de euros, uns expressivos 42% acima do registado no mesmo mês de 2014.

A maior parte do financiamento ao consumo foi, no entanto, para o chamado crédito pessoal - para despesas de educação, saúde, eletrodoméstico ou viagens - com 175,962 milhões de euros, mais 14,8% em termos homólogos.

Por fim, nos empréstimos para cartões de crédito, linhas de crédito, contas correntes bancárias e facilidades de descoberto, foram assinados em junho contratos no valor de 82,936 milhões de euros, 6,29% acima de junho de 2014.

Os 409,3 milhões de euros de crédito ao consumo concedido pela banca em junho foram apenas superados pelos novos empréstimos celebrados em março deste ano. Nesse mês, a banca emprestou 441,915 milhões de euros só para consumo, o valor mais alto pelo menos desde 2012, segundo os dados disponibilizados pelo Banco de Portugal.

Analisando todo o primeiro semestre deste ano, os bancos a operar em Portugal concederam 2,3 mil milhões de euros em crédito ao consumo, sendo que 810 milhões foram destinado à compra de carro, o equivalente a 35% do total.

Mais crédito pode desequilibrar contas externas


O crédito aos particulares continua em níveis mínimos de 2007 mas os novos empréstimos voltaram a subir, o que reflete a confiança dos portugueses na melhoria da economia, embora possa desequilibrar a balança externa, alertam analistas consultados pela Lusa.

Apesar de o total de empréstimos dos bancos a particulares estar no nível mais baixo em oito anos, o novo crédito ao consumo tem vindo a recuperar e os novos financiamentos bateram já em 2015 máximos de vários anos. Só em junho, foram celebrados créditos para comprar bens de consumo no valor de 409,382 milhões de euros, mais 21,5% do que no mesmo mês de 2014.

De acordo com Rui Bárbara, economista do Banco Carregosa, como nas economias modernas os ciclos de crédito estão muito ligados aos económicos, é natural que haja uma recuperação dos empréstimos concedidos agora que a economia começa a dinamizar.

"Passámos da fase da contração do crédito (que vem com as recessões) para a fase de maior concessão de crédito, típica do fim da recessão e que alimenta a própria recuperação do PIB [Produto Interno Bruto]. A própria disponibilidade da banca para emprestar mais, tal como desejava o BCE [Banco Central Europeu], é um indicador da proximidade da mudança de ciclo", resumiu o analista deste banco de investimento.

Também Filipe Garcia, da Informação de Mercados Financeiros (IMF), justifica este aumento do crédito concedido aos particulares com o facto de as famílias, que "adiaram o consumo" durante os anos mais graves da crise, "voltarem agora a querer consumir, nomeadamente bens duradouros, e estarem mais confiantes em relação ao futuro".

No entanto, Filipe Garcia considera que, apesar de haver ainda "mais prudência dos bancos" na concessão de empréstimos às famílias, "é uma mera questão de tempo até se voltar a algum laxismo no crédito ao consumo".

"Portanto, a prazo não estou particularmente otimista", conclui.

Para os economistas, contudo, o problema é saber qual o efeito deste aumento do consumo nas contas externas, uma vez que a história económica recente mostra que quando os portugueses têm mais dinheiro no bolso (mesmo que através do crédito) aumentam o consumo, o que tem impacto sobretudo nas importações. Isto pode fazer com que a balança comercial, que passou a ser positiva em 2013, volte a apresentar défices, com as importações a superarem as exportações.

Filipe Garcia explica precisamente que, "sempre que o consumo privado ou o investimento aceleram, o mesmo acontece com as importações, tornando a balança comercial deficitária".

Para Rui Bárbara, "o verdadeiro problema" é mesmo garantir que mais consumo não vai voltar a penalizar as contas externas: "Será que reequilibrámos e fortalecemos a estrutura económica nos últimos anos? Tenho sérias dúvidas. E é por isso não ter acontecido que se pode voltar ao mesmo ciclo vicioso: aumento do crédito e do consumo com o proporcional aumento das importações, o que voltará a agravar o desequilíbrio a balança externa", adverte o economista.