Muitas das decisões que tomamos todos os dias parecem individuais, mas não são. Numa economia global, numa zona em que há uma moeda única para vários países, há muitas decisões que nos afetam, hoje ou mais tarde, cujas regras não ditámos.

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou o corte, para metade, do programa de compra de dívida, de 60 mil milhões de euros mensais, para 30 mil milhões a partir de janeiro de 2018. Uma decisão muito aguardada e diretamente relacionada com "o crescimento sólido da economia", como disse o presidente do BCE, Mário Draghi, em conferência de imprensa. Com os indicadores de confiança a atingir novos máximos, os fluxos de crédito a regressarem às empresas e famílias, e a atividade económica finalmente a acelerar, muitos eram os analistas e economistas que esperavam esta decisão de Mario Draghi: o começo do fim dos estímulos à economia. 

No espaço da Economia24, do “Diário da Manhã” da TVI, fomos perceber com o responsável pela negociação do Banco Carregosa, João Queiroz, porque que esta decisão tem impacto na vida dos portugueses.

Afinal o que é isto de andar a comprar dívida dos países e agora comprar menos?

É um formato diferente, não convencional, por parta da autoridade monetária europeia – BCE – para injetar liquidez na economia. Mario Draghi, falou ontem de recalibramento, ou seja, neste momento o conjunto dos ativos [comprados pelo BCE] já tem um peso expressivo, relativamente ao Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro (cerca de 40%). Ultrapassa o da Fed (homónimo do BCE nos Estados Unidos) relativamente à economia norte-americana.

As economias, se calhar, já não têm tantas necessidades [como na crise] e o BCE responde agora como uma rede de segurança.

Há o reafirmar que as taxas de juro podem continuar baixas - é possível e basta olhar para o Japão, onde há 20 ou 25 anos que as taxas de juro navegam próximo de zero - e se houver qualquer questão relativamente ao sistema bancário italiano, ou algo mais, há recursos disponíveis.

Então os juros podem ficar baixos mais tempo?

Diria que sim. É uma excelente notícia a de ontem. Se temos uma grande oferta de moeda – o euro é um recurso – e o seu preço continua a estar cá em baixo …  é natural que as pessoas, relativamente ao que são os seus créditos [casa, carro...] possam, durante mais algum tempo, não ter que sofrer com o aumento dos juros e alocarem os recursos a outro tipo de bem estar.

Também é bom para Portugal? Pagamos menos juros para nos financiarmos …

Corretíssimo e isso já se está a verificar-se esta sexta-feira nos juros das taxas a 10 anos – estão nos cerca de 2,2% – a caminho do que se está a verificar também com a dívida italiana. As próximas colocações por parte do Estado português, possivelmente, não vão corresponder a um serviço de dívida [totalidade dos pagamentos de juros e reembolso de capital que tem que ser pago] tão elevado. Recursos que depois podem ser alocados a outros objetivos.

O eco às empresas também pode chegar por essa via?

Sim. O Estado pode depois ter mais recursos para fazer, no próximo ano, por exemplo, um Orçamento do Estado diferente. Ou mais expansionista, ou optar por reduzir o stock da dívida pública, ou permitir que as empresas e os seus contribuintes não paguem tantos impostos, direta e indiretamente.