Dados da SIBS, gestora da rede Multibanco, revelam que as compras realizadas nos terminais de pagamento automático da rede Multibanco entre 23 de novembro e 27 de dezembro ascenderam a 3.712 milhões de euros, mais 7,3% que em igual período de 2014.

Para a coordenadora do Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS) da Deco, Natália Nunes, estes dados “são preocupantes” porque as dificuldades financeiras das famílias permanecem.

“No que concerne a famílias em situação de dificuldade os números são semelhantes aos que se verificaram em 2014” e superiores aos de 2012 e 2013, o que permite verificar que “não há uma alteração significativa da situação financeira das famílias”, adiantou.

Por outro lado, “olhando para a situação das famílias em 2015 nós verificamos que ela até se agravou face a 2014”, sublinhou Natália Nunes.

Segundo a responsável, a maior parte das famílias que pede ajuda ao GAS já não tem qualquer capacidade de reestruturar a sua situação: “São famílias que vão ser confrontadas, se ainda não estão, com a penhora dos bens e dos rendimentos ou até com o recurso ao tribunal para pedirem a sua insolvência”.

Sobre as razões que poderão ter levado a este comportamento dos portugueses, apontou o “clima de alguma euforia” que se criou sobre o fim da crise.

“A verdade é que desde o verão tem-se criado um clima de alguma euforia que tem levado a que as famílias tenham a ideia, às vezes não correta, de que as dificuldades estão ultrapassadas, que a crise terminou e a sua situação financeira se vai alterar”, sublinhou.

Esta situação está a preocupar a Deco, que nos últimos tempos tem vindo a verificar, relativamente à concessão de crédito, que tanto as famílias, como as instituições de crédito, estão ”a ter os comportamentos que tinham antes da crise, ou seja, estão a ser menos responsáveis na forma como lidam como o dinheiro”.

“A nossa preocupação vai no sentido de que tanto as instituições de crédito como as famílias não estejam a acautelar os seus direitos e não estejam a ser responsáveis na forma como lidam com o seu dinheiro e que isso venha a trazer consequências a médio prazo”, salientou.

O número de famílias sobreendividadas que recorreu à Deco estava no final de outubro próximo do nível verificado no mesmo período de 2014 (cerca de 26 mil), numa altura em que a taxa de poupança dos particulares estava em mínimos desde 1995.

“Há aqui já por parte dos consumidores o privilegiar do consumo e esquecer a poupança”, disse Natália Nunes, lamentando que a expectativa do GAS de que a crise servisse para alertar os consumidores para a necessidade de gerirem de forma correta o seu dinheiro, privilegiando a poupança, não ter tido esse efeito.

Numa altura em que se inicia um novo ano, Natália Nunes apelou às famílias para repensarem “a forma como lidam com o dinheiro” e como organizam o seu orçamento mensal.

As famílias têm de contemplar “o consumo de forma responsável e privilegiar a poupança, que é fundamental se formos confrontados com algum imprevisto a curto prazo e para acautelar a idade da reforma”.