O ex-diretor do Banco Espírito Santo (BES) Carlos Calvário disse esta terça-feira no parlamento ter dúvidas de que as falhas detetadas na dívida da Espírito Santo International (ESI) fossem um mero erro, escreve a Lusa.

«Custa-me muito a crer que tenha sido um erro», disse o responsável na comissão de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo (GES), onde está hoje a ser ouvido.

A ocultação de dívida da ESI, holding do GES, tem sido um dos temas centrais nos trabalhos da comissão.

«Opinativamente, não vejo que possa ser um erro desta dimensão. Não entendo. A teoria do erro sei que há muita gente que a defende. Cada um tem a sua opinião», vincou Carlos Calvário, sem acrescentar mais visões sobre a matéria.


Ouvido no parlamento em janeiro, o ex-contabilista da ESI, Francisco Machado da Cruz, revelou que o ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, sabia da ocultação de contas da ‘holding' do GES desde 2008.

Machado da Cruz declarou também - numa audição que decorreu à porta fechada - que foi o próprio Ricardo Salgado a ter tal ideia, disse fonte parlamentar à agência Lusa.

Em 2008, o passivo ocultado foi de 180 milhões, adiantou, sendo que o valor total de dívida nesse registo viria a ser de 1,3 mil milhões de euros - uma das causas para o que viria a ser o colapso do GES e do BES.

Tais montantes viriam a aumentar nos anos seguintes.

Na semana passada, o ex-responsável de ‘compliance' do BES, João Martins Pereira, revelou que, em março de 2014, o então contabilista da ESI lhe disse que Ricardo Salgado, José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo conheciam os problemas da ‘holding'.

«[O contabilista] Machado da Cruz disse na minha presença que havia três pessoas no grupo [GES]que sabiam que a dívida não estava totalmente refletida, mas que não sabiam o montante», afirmou Martins Pereira durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES.

Tratava-se do ex-presidente do BES Ricardo Salgado, José Manuel Espírito Santo, ex-administrador do banco, e Manuel Fernando Espírito Santo, ex-presidente da Rioforte, especificou o ex-responsável pela ‘compliance' do BES.

Martins Pereira revelou também que já sabia do problema do passivo da ESI desde 12 de novembro de 2013, numa reunião em que participaram José Castella, Francisco Machado da Cruz e Carlos Calvário, que o informaram de que «a dívida não estava correta».

Carlos Calvário está a ser hoje ouvido na comissão de inquérito desde cerca das 15:00 - às 21:00 ainda respondia ao segundo bloco de perguntas dos partidos - e apresentou na sua intervenção inicial um resumo do seu trajeto profissional desde que ingressou no BES até hoje.

Atualmente, o responsável está no Novo Banco e é diretor coordenador do Departamento Técnico de Imobiliário.

A comissão de inquérito teve a primeira audição a 17 de novembro passado e tinha inicialmente um prazo total de 120 dias, que expirou a 19 de fevereiro.

Os trabalhos foram entretanto prolongados por mais 60 dias, aprovaram os partidos por unanimidade.

Os trabalhos dos parlamentares têm por intuito «apurar as práticas da anterior gestão do BES, o papel dos auditores externos e as relações entre o BES e o conjunto de entidades integrantes do universo do GES, designadamente os métodos e veículos utilizados pelo BES para financiar essas entidades».