«É uma grande responsabilidade. Fazer em 48 horas um Novo Banco, se alguém me tivesse desafiado para fazer de novo, não sei se teria coragem. Todos os meus colegas são heróis. É uma tarefa de uma dimensão que ninguém imagina»

Carlos Costa continuou o desabafo, frisando que fala não para se autoelogiar, mas para realçar o «mérito» da sua equipa:

«Se nós chegarmos ao final deste processo com um preço que não constitua um elemento não absorvível pelas condições normais, que salvaguarde a concorrência do sistema e as competências instaladas, nomeadamente em termos de PME, valeu a pena os poucos cabelos pretos que tinha terem desaparecido. Ninguém imagina o que isto significa. Estou aqui a falar não na qualidade de governador, mas na qualidade de pessoa. Até com alguma emoção, admito. É uma tarefa de uma dimensão incrível»

«Não desejo nem ao meu pior inimigo passar pelo que a equipa do Novo Banco passou, não é o que eu passei, é o que a equipa passou. Em que tudo passava a enorme velocidade. Faltam 48 horas, 48 minutos...». Senão a comissão europeia entraria em cena, explicou, aludindo àquele fim de semana entre 1 e 3 de agosto de 2014, em que o BES foi dividido em dois: banco mau e Novo Banco.

«Tenho preocupação sobre investidores do papel comercial»

O tema do papel comercial foi transversal a todas as perguntas dos deputados. Carlos Costa explicou que não há proposta nenhuma em cima da mesa, ao contrário do que foi noticiado, mas critérios a que o Novo Banco tem de obedecer. E, já que estava num momento de desabafos, fez mais um:

«Não digo mais nada. Há casos que me emocionaram e tive de dizer que a lei é a lei e tem de se cumprir». «Tenho preocupação sobre investidores do papel comercial», mas «a lei sobrepõe-se ao Banco de Portugal».

«Obviamente que me custa muito que as pessoas vão para a porta de minha casa dizer que sou gatuno. É a maior ofensa que me fizeram na vida. Podia ser complacente, mas há que ter a coragem de respeitar a lei»

Antes, Carlos Costa já tinha dito, a propósito dos protestos de clientes de que foi alvo no último fim de semana, que não é «um gatuno»: «Eu não roubei ninguém».

O presidente da comissão de inquérito interveio entretanto e citou Herberto Helder, falecido esta terça-feira: «Não sei como dizer-te que a minha voz te procura». Fernando Negrão evocou o poeta para perguntar a Carlos Costa se está disponível para negociar com os lesados do BES que procuram a sua voz na resolução do problema do papel comercial.

Carlos Costa mostrou-se «disponível» para esse diálogo, bem como a sua equipa, que «está instruída» para isso e que até já recebeu duas associações.

Ainda hoje, o presidente da comissão de inquérito recebeu pessoas «que se demarcaram da situação lamentável que aconteceu» à porta da casa do governador, como deu conta aos deputados e ao visado pelos protestos.