O ex-administrador executivo do Banco Espírito Santo, Rui Silveira, fechou as audições de 2014 na comissão de inquérito BES/GES. Foi ouvido durante seis horas pelos deputados, sem problemas de apontar o dedo, diretamente, a alguns responsáveis pela derrocada do grupo e do banco.

Foi o mais crítico e direto na atribuição de culpas ao Banco de Portugal, por causa da resolução que dividiu o BES em dois. Uma escolha que, acusa, teve o dedo do Governo. Apontou ainda o dedo ao Estado angolano, por ter retirado a garantia que cobria os créditos ao BESA. Um caso, diz, que devia ir a tribunal.

O resumo da audição em 10 pontos:

1 - Resolução que fez do BES um banco tóxico e criou o Novo Banco foi «desnecessária, desadequada, excessiva e ilegal». Era um «imperativo nacional» manter o BES vivo2 - Resolução teve «assumido entendimento» com o Governo e pedido foi «formulado com antecedência», ou seja, antes do dia 1 de agosto (versão oficial). Teve a «participação ativa da comissão europeia, BCE, Governo português e Banco de Portugal»
 
2 - Acusou o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de uma «desrespeitosa interferência» nos trabalhos da comissão, ao sentenciar que a culpa da derrocada é da administração do GES/BES

3 - Banco de Portugal tinha «poder soberano» para retirar a idoneidade e afastar Salgado. «Que eu tenha conhecimento, não é verdade» que o supervisor tenha feito um «certo persuasivo» (palavras de Carlos Costa) ao ex-presidente do BES

4 - Houve «atos lesivos» no seio do próprio BES. A maioria tentava cumprir as determinações do Banco de Portuga, mas houve uma minoria que prevaricou: «Era proibido o aumento do financiamento direto ou indireto a áreas do grupo não financeiro e isso aconteceu, por via da emissão de obrigações e poderia ter acontecido por via das cartas de conforto»

5 –  Confirmou que existiam «interessados» na recapitalização privada do BES, mas o prazo de 48 horas imposto pelo BdP era inexequível

6 - Se o Banco de Portugal tivesse mantido elegível a garantia de Angola, que cobria os créditos do BESA, tudo seria diferente

7 – Retirada da garantia, por parte do Estado angolano, foi uma «decisão unilateral» e «ilegal», que merecia ir parar aos tribunais, para impedir que os 3,3 mil milhões de euros se perdessem

8 - Segundo lhe reportou o Banco de Porugal, o BESA era um ativo «valiosíssimo» em junho de 2014 e a garantia era «válida, firme e irrevogável». Um mês depois, caiu e o BES implodiu ainda mais por causa disso

9 - Havia «excessos de exposição» do BES ao BESA, mas «supostamente para uma alimentar carteira saudável» que, segundo o Banco Nacional de Angola, era das «melhores do sistema financeiro angolano»

10 - Lista de clientes do BESA, a quem se destinaram os créditos, deverá ser conhecida pelo Banco de Angola, pela KPMG e não sabe se, também, pelo Banco de Portugal. No BES, não faz ideia

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