As propostas de compra do Banif que chegaram ao banco em 2010 e 2011 eram "ridículas", segundo revelou esta quarta-feira, na comissão de inquérito sobre o caso, o antigo presidente executivo do Banif Carlos Duarte de Almeida, que liderava a instituição nessa altura.

"Procuramos arduamente em 2010 e 2011 por um parceiro estratégico. Por duas ocasiões estivemos muito perto de estabelecer parcerias. Mas por motivos fortuitos nenhuma dela se concretizou. As propostas que nos chegavam para a compra do banco eram ridículas. Nem podiam ser analisadas com seriedade"

O antecessor de Jorge Tomé esteve 23 anos no banco, 21 anos e meio dos quais enquanto administrador financeiro.

Foi em meados de 2010 houve consciência entre os gestores do banco de que "para dar dois passos em frente o Banif tinha que dar dois passos atrás".

"Com a morte do comendador [Horário Roque, que fundou o banco], fui CEO [presidente executivo]. Só no banco é que eu fui CEO, já que na ‘holding’ não havia Comissão Executiva. Sabíamos que a futura administração [liderada por Jorge Tomé] não teria tarefa fácil", indicou ainda aos deputados.

"A perda de Horácio Roque foi brutal, por ser inesperada. Durante vários meses [faltou] orientação estratégica. Com ele, estou certo de que hoje não estaríamos aqui"

O responsável admitiu ainda, citado pela Lusa, que, "olhando para trás, é de reconhecer que o grupo se tornou demasiado grande e demasiado complexo". E "precisava de dois anos pelo menos" para recuperar o terreno perdido,.

"Começámos [a reestruturação] em 2010 mas já não foi a tempo. Devíamos ter começado em 2008 ou 2009", afirmou, reforçando que neste "grupo liderado por uma personalidade como Horácio Roque, era muito difícil convencê-lo que para crescer mais era preciso parar um bocadinho".

Duarte de Almeida admitiu igualmente que a herança para a nova gestão foi de um banco com "pontos fortes" mas também com "muitas carências". Já em 2012 havia "elevados rácios de incumprimento no crédito", pelo que "não havia alçapões nem esqueletos no armário" quando a administração de Jorge Tomé tomou posse.

"O crédito em risco sobre o crédito total era de 16% quando saímos em 2012", destacou, sublinhando que não houve grande variação neste rácio nos anos seguintes.

Certo é que "o grupo Banif nasceu do nada e esteve 20 anos a crescer" e, "não sendo um banco do sistema, tinha que crescer na franja do mercado", o que aumentava as probabilidades de ter problemas ao nível da carteira de crédito.