A segunda audição a Ricardo Salgado na comissão de inquérito durou 10 horas e não alterou significativamente a postura do banqueiro, que continua a culpar o Banco de Portugal pelo colapso do BES/GES.
 
O ex-presidente do banco recusou pedir desculpa pelo que aconteceu e arrasou a auditoria que lhe aponta desobediências e infrações graves.
 
O resumo da audição em 12 pontos:

- criticou a auditoria da Deloitte, encomendada pelo Banco de Portugal, que lhe aponta 21 desobediências a esta entidade nos últimos meses do banco, considerando que se baseou «exclusivamente» nas informações do BdP. E anunciou mesmo que iniciou uma ação de «incidente de suspeição» sobre o governador, Carlos Costa, acusando-o de «manifesta falta de isenção»;

- alegou que cumpriu as ordens do Banco de Portugal «até ao colapso final» e que não houve violações ring-fencing, porque tudo o que fez foi para «reembolsar os clientes do banco»;

- não acredita que tenha sido a ocultação de dívida na ESI a causar o colapso do GES e do banco, justificando que esta foi conhecida antes de um aumento de capital que foi um «absoluto sucesso».  Defende, então, que foram a «volatilidade das ações e a fuga de depósitos que ditaram o fim do BES». Ou seja, que a culpa foi do Banco de Portugal;

- admitiu que as contas falsificadas na ESl, cuja responsabilidade sempre atribuiu ao contabilista Francisco Machado da Cruz, apesar de este assegurar que só seguiu as ordens de Ricardo Salgado, foram «um desastre» e que havia «defeitos de organização» no Grupo Espírito Santo;

- garantiu que avisou, desde abril, o Presidente da República, o primeiro-ministro e a ministra das Finanças para o «risco sistémico» de os problemas no GES virem a afetar o banco e sublinhou que estava à espera de um apoio estatal;

- destacou que Passos Coelho lhe propôs uma solução «inviável», que seria renegociar com os credores, em maio. Mas admitiu que o primeiro-ministro deve ter sido mal informado pelo governador do Banco de Portugal;

- defendeu que os clientes lesados com o papel comercial do GES tinham «direito» a ser reembolsados e assegurou que «ficaram no BES provisões excedentárias que deviam permitir reembolsar todos estes clientes»;

- revelou que Henrique Granadeiro, Zeinal Bava e os acionistas da Oi sabiam da aplicação da PT no Grupo Espírito Santo, o que tinha sido desmentido por todos (só Granadeiro admitiu responsabilidade por uma aplicação de 200 milhões de euros na Rioforte, mas ainda assim não na totalidade de 897 milhões de euros);

não confirmou ter recebido dinheiro do BESA através de uma offshore e não acredita que este tenha servido, ao longo dos anos, para financiar empresas do GES; 

- considera que foi a medida de resolução a criar o buraco de 3,3 mil milhões de euros de créditos não devolvidos do BESA e que a negociação do Novo Banco (que conseguiu recuperar apenas 680 milhões) foi «desastrosa»;

- desmentiu todos aqueles que disseram, na comissão de inquérito, que o poder do BES/GES estava centralizado em si e acusou outras pessoas, sem especificar nomes, de estarem a «atirar responsabilidades» para cima de si;

- aproveitou para responder a Pedro Queiroz Pereira sobre as suas irmãs fazerem bolos para vender para fora: «As minhas irmãs nunca puseram processos judiciais contra mim».