O antigo governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio disse esta terça-feira, numa carta, que enquanto exerceu o cargo, entre 2000 e 2010, não recebeu informações sobre eventuais perigos da solidez financeira do Banco Espírito Santo.

«Durante o período em que exerci essas funções nunca recebi, quer dos serviços, quer do vice-governador responsável pelos assuntos de supervisão bancária, informações que pudessem pôr em causa a solidez financeira do BES ou o respetivo cumprimento dos rácios prudenciais que constituem aspeto fundamental da supervisão bancária», declarou Constâncio.

As palavras do atual vice-presidente do Banco Central Europeu surgem em carta endereçada à comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo, com Constâncio a responder na missiva - a que a agência Lusa teve acesso - a várias perguntas enviadas por escrito pelos vários partidos.

O responsável alerta, contudo, que o BCE, «enquanto instituição europeia, responde apenas perante o Parlamento Europeu», mas respondeu a questões em torno do período em que foi governador do BdP.

Vítor Constâncio diz que entre 2000 e 2010 nunca foi contactado por membros do Conselho Superior do GES sobre dúvidas nas contas do grupo ou de alguma das suas holdings, e frisa só ter tido conhecimento dos problemas no BES quando estes foram tornados públicos.

«Tomei conhecimento dos problemas do BES que conduziram à sua resolução quando o assunto se tornou público em 2014», declara.

A comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo está esta terça-feira a ouvir o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, Carlos Tavares, que marca presença no parlamento pela segunda vez desde o arranque dos trabalhos.

A comissão de inquérito teve a primeira audição a 17 de novembro passado e esta terça-feira, além de Carlos Tavares, será ainda escutado o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

A última audição prevista para a comissão de inquérito é a da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, que prestará novo depoimento perante os deputados na quarta-feira.

Os trabalhos dos parlamentares têm por objetivo «apurar as práticas da anterior gestão do BES, o papel dos auditores externos e as relações entre o BES e o conjunto de entidades integrantes do universo do GES, designadamente os métodos e veículos utilizados pelo BES para financiar essas entidades».