O ex-presidente do Conselho de Administração do Banif, Luís Amado, lamentou esta quarta-feira o fim do banco e diz-se frustrado com a "sensação de morrer na praia" após o processo de reestruturação em que se empenhou ter sido "bloqueado".

Luís Amado, que está hoje a ser ouvido na comissão parlamentar de inquérito ao Banif no parlamento, fez uma exposição inicial de cerca de 15 minutos em que corroborou várias ideias do antigo presidente executivo do banco, Jorge Tomé, que foi escutado pelos deputados na terça-feira.

Amado - que foi presidente não executivo do banco entre março de 2012 e o momento da resolução, em dezembro passado - sublinhou que a capitalização do banco, aquando do programa de resgate, "foi uma decisão do Estado, assumida pelo [então] Governo e pelo Banco de Portugal num contexto muito particular do país, em circunstâncias muito específicas", e também a resolução é uma decisão estatal que "tem de ser avaliada".

"É esse também o objeto desta comissão de inquérito. O centro de gravidade da decisão tem de ser naturalmente apurado, e as opções em alternativa, se é que as havia, têm de ser devidamente avaliadas", advogou.

O antigo responsável do Banif declarou ainda que a aprovação do último plano de reestruturação da entidade pela Direção-Geral da Concorrência [DG Comp] era "colocada sempre pelos investidores como absolutamente crítica", mas "infelizmente não foi esse o desenrolar do processo".

"Em plena campanha eleitoral, em plena situação de vazio político criado pela transição entre um governo e outro governo, naturalmente a DG Comp impôs as suas regras, e o desenvolvimento do processo de reestruturação (..) foi efetivamente posto em causa. A partir desse momento, o banco entrou numa séria crise de confiança, e como aqui foi dito uma notícia precipitada e absolutamente inimaginável agudizou ainda mais (a crise)", prosseguiu o antigo governante.

Em 2013 e 2014, diz Amado, houve uma efetiva "convergência de vontade" entre a entidade e o Estado, principal acionista do banco após a recapitalização de 1,1 mil milhões de euros da linha da ‘troika' para a banca.

"Ao longo de 2013 e 2014 houve uma excelente cooperação entre o [então] Governo, através do Ministério das Finanças, o Banco de Portugal e o Conselho de Administração [do Banif]", reconheceu, embora logo alertando que em 2015 esse nível de cooperação "deixou de ter a mesma consistência".

"Vários factos aconteceram, entretanto", e contribuíram para tal, advoga: a resolução do BES, a mudança de pessoas no Governo, na Comissão Europeia e na própria DG Comp foram alguns dos elementos destacados por Luís Amado.

A problemática do BES é, todavia, a mais impactante, até porque houve um impacto financeiro direto, de 119 milhões de euros, da queda do banco no Banif, o que "de alguma forma criou alguma hesitação ao caminho a seguir".

Luís Amado é a terceira personalidade ouvida na comissão parlamentar de inquérito: na terça-feira, primeiro dia de audições, prestaram depoimento no parlamento os antigos presidentes executivos Joaquim Marques dos Santos e Jorge Tomé.

O processo de venda do banco, em dezembro de 2015, domina os trabalhos para se proceder à "avaliação de riscos e alternativas" da decisão, "no interesse dos seus trabalhadores, dos depositantes, dos contribuintes e da estabilidade do sistema financeiro".

Também a avaliação do "comportamento da autoridade de supervisão financeira", o Banco de Portugal, sobre o caso Banif, é um dos objetivos da comissão parlamentar de inquérito sobre a venda do banco.

Luís Amado disse ainda que, quando foi convidado para o banco, não lhe disseram que era preciso capital.