1 - Salgado não recebeu «sinal» para sair ou Banco de Portugal fez-lhe um «cerco»?


 
Era a figura maior dos Espírito Santo e a sua predominância estendia-se muito além do banco que liderou durante duas décadas. Como parte do plano para afastar a família dos comandos do grupo, a sucessão de Ricardo Salgado tornou-se um tema central dos últimos meses do BES e do GES.
 
Por que demorou tanto tempo a sair desde que se começaram a perceber os problemas? Por que continuou à frente do banco quando era suposto mudar de estratégia?
 
A versão do banqueiro é esta: o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, nunca lhe deu um «sinal» de que queria que saísse, tendo pedido apenas que se afastasse «a família toda». Salgado garante mesmo que teria abandonado o BES «na hora» se Carlos Costa considerasse que não tinha idoneidade para continuar.
 
O governador e o vice-governador têm outra: o Banco de Portugal fez um «cerco» e uma «persuasão moral» a Ricardo Salgado, só que não teve poderes para mais, inclusive para retirar a tal idoneidade. Nem conseguiu convencer a nova equipa de gestão a entrar mais cedo.
 
O tempo é mesmo um fator crucial. Carlos Costa gaba-se de ter conseguido iniciar o processo de sucessão em abril, mas Salgado só saiu, efetivamente, a 13 de julho. O governador defende que o ex-presidente do BES já não estava em funções, mas ficou provado que ainda em junho Ricardo Salgado assinou as cartas de conforto passadas à Venezuela que deixaram um «buraco» de 267 milhões de euros nas contas do banco.
 
2- Novo Banco tem ou não dinheiro para reembolsar os clientes do papel comercial?


 
2500 clientes do BES que subscreveram papel comercial de empresas do GES perderam 527 milhões de euros com a medida de resolução. Logo em agosto, questionaram o Banco de Portugal sobre a possibilidade de reembolso e receberam um e-mail com uma resposta positiva. Meses depois, o Novo Banco vinha dizer que não tinha qualquer «obrigação legal» de pagar e os clientes iniciavam os protestos na rua, nos balcões e até em frente à casa do governador.
 
O tal e-mail referia que a obrigação de reembolso tinha sido «transferida» para o Novo Banco com a medida de resolução, algo que o seu presidente, Stock da Cunha, negou taxativamente na comissão de inquérito. Confrontado com este desmentido, na sua segunda audição, Carlos Costa explicou que os funcionários do Banco de Portugal que escreveram esse e-mail «não têm formação contabilística».
 
E é de uma questão contabilística que se trata. Ricardo Salgado garantiu que deixou no BES «provisões extraordinárias» que chegariam para reembolsar todos os lesados. Só que, defendem o governador e Stock da Cunha, essas provisões não significam exatamente que haja dinheiro. De qualquer forma, é crucial ter em conta que, se os 527 milhões saíssem agora do Novo Banco, este ficaria enfraquecido para uma venda que Carlos Costa e o Governo desejam ser rápida.
 
No entanto, o presidente da CMVM, Carlos Tavares, considerou que há uma «obrigação moral» de compensar esses clientes, porque estes investiram, através dos balcões do BES, em produtos financeiros de empresas que estavam a dar informações erradas ao mercado. O Banco de Portugal até concordou, mas defendeu que é junto da ESI e da Rioforte, sedeadas no Luxemburgo, que os lesados têm de ir bater à porta.
 
3- Quem mandou a PT investir quase 900 milhões na Rioforte?




 
Nos últimos meses do BES/GES, a Portugal Telecom fez várias aplicações na Rioforte, empresa do GES que viria a falir, deixando um buraco de 897 milhões de euros na operadora, prejudicando a fusão desta com a Oi e, ao limite, levando à venda da PT Portugal aos franceses da Altice. Pela implicação deste investimento na desvalorização de uma das maiores empresas nacionais, os deputados desejavam encontrar um ou vários culpados.
 
O problema é que os dedos se foram apontando de um lado para o outro e será necessário escolher em qual das versões acreditar.
 
Zeinal Bava alegou que, «em sã consciência», nada sabia. Nessa altura era já presidente da Oi, passava muito tempo no Brasil e, apesar de responsável pela PT Portugal, defendeu que esse investimento cabia na esfera da tesouraria da PT SGPS, ou seja, na responsabilidade de Henrique Granadeiro.
 
Henrique Granadeiro assumiu a culpa por uma das aplicações, no valor de 200 milhões de euros, mas não pelas outras, contrariando a versão de Bava ao garantir que a responsabilidade era da PT Portugal. Mas os verdadeiros visados pelo ex-presidente da Portugal Telecom foram Morais Pires e Joaquim Goes, já que eram, simultaneamente, administradores do BES e da PT e, portanto, foram «desleais» ao compactuar com este investimento e «omitiram» informação à operadora sobre os problemas no GES.
 
Tanto Bava como Granadeiro desculpabilizaram Ricardo Salgado: ou assegurando que o BES não mandava a PT fazer estes investimentos em empresas do GES, ou negando a «história romântica» de que a operadora serviu para atirar uma «boia» de salvamento ao banqueiro nos meses anteriores ao colapso. Mas Salgado incluiu todos no mesmo barco: Zeinal Bava sabia, Henrique Granadeiro sabia e os acionistas da Oi também sabiam, «mas depois desmentiram».
 
Quanto aos outros intervenientes, Morais Pires revelou que o investimento foi uma «combinação» entre Granadeiro e Salgado, Joaquim Goes isentou-se de qualquer influência nestas aplicações. Já Luís Pacheco de Melo, o ex-administrador financeiro da Portugal Telecom, foi mais atrevido nas palavras, confessando ter sido «enganado» e «roubado» pelos altos responsáveis do GES.
 
4- O Governo e o Presidente fizeram ou não tudo o que podiam?


 
Um dos grandes ângulos da oposição durante a comissão de inquérito foi o papel do poder político nos meses que antecederam o colapso. Em abril e maio, já Ricardo Salgado corria de um lado para o outro a tentar obter apoios para salvar o grupo, mas pouco ou nada foi feito até à medida de resolução.
 
Foi o próprio Salgado que, na primeira audição, contou ter tido reuniões com membros do Governo - Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Carlos Moedas - e ainda ter falado com Durão Barroso. No entanto, só mais tarde, através de carta enviada aos deputados, informou que também teve dois encontros com o Presidente da República e ainda um com Paulo Portas.
 
Segundo o ex-presidente do BES, o «grito de alarme» que deu a todos foi claro: havia o «risco sistémico» de os problemas do GES afetarem o banco e era necessário um apoio, um «empréstimo», para o evitar. Ao não terem correspondido, todos os políticos são também responsáveis pelo que aconteceu depois.
 
A versão do banqueiro foi parcialmente desmentida por todos os membros do Executivo, que asseguraram que nunca Ricardo Salgado deu a entender que o BES podia sofrer os efeitos da exposição ao GES. O pedido de ajuda foi confirmado, mas rejeitado na altura porque o Governo não quis salvar um grupo privado com dinheiros públicos.
 
5- Quem perdeu os 3,3 mil milhões do BESA?


 
Foi um dos números mais elevados repetido vezes sem conta durante as audições: 3,3 mil milhões de euros. Trata-se dos créditos concedidos pelo BES ao BESA, sem grande controlo, e que se perderam com a divisão do banco português. Feitas as contas, são 3,3 mil milhões a mais que o Fundo de Resolução precisou de injetar no Novo Banco. É muito dinheiro para se perder assim.
 
Vamos às versões. Álvaro Sobrinho, ex-presidente do BESA, garantiu que não encostou uma pistola «à cabeça de ninguém». Ou seja, que até pode ser «culpado» por parte dos créditos, mas que não obrigou os responsáveis do BES a aceitarem. Ricardo Salgado, no entanto, alegou que não teve influência nestes e culpou Sobrinho pela «dívida pavorosa» que se descobriu nos meses finais do banco. Já Morais Pires admitiu que os créditos foram «mal» concedidos, sem «informação correta e viável».
 
Os três concordaram num aspeto: o Banco de Portugal, ao colocar a garantia estatal angolana (que cobria esses créditos) no banco mau, fez com que esta caísse, deixando o tal buraco de 3,3 mil milhões. Uma versão desmentida por Carlos Costa, que revelou que, ainda dois dias antes da medida de resolução, o Banco Nacional de Angola mudou a abrangência da garantia, contribuindo desde logo para uma «perda parcial» dos créditos.
 
E a quem foram atribuídos esses créditos? Ou seja, quem recebeu e não pagou? Sobrinho tem uma teoria curiosa: o dinheiro «não saiu de Portugal», ficou no BES. O governador alegou que nunca soube quem eram os beneficiários desses créditos. A auditoria que o Banco de Portugal encomendou à Deloitte veio levantar um pouco o véu: parte do dinheiro foi parar a «entidades» ligadas a «responsáveis do BES», conforme as notícias foram veiculando.
 
O «Expresso» já tinha identificado então quem seriam essas entidades: as três offshores, Savoices, Alltine e Pineview Overseas, ligadas a Ricardo Salgado, Morais Pires e Álvaro Sobrinho, respetivamente. Questionado diretamente, o ex-presidente do BES negou ter desviado o dinheiro que ia para Angola, já que não recebeu «nem mais um centavo» do que declarou.