1 – Salgado culpa o Banco de Portugal


 

Pode falar toda a gente, podem ser divulgadas todas as auditorias, que Ricardo Salgado mantém sempre a sua versão da história: «O BES não faliu, foi forçado a desaparecer». Pelo Banco de Portugal, ao que parece. Segundo o banqueiro, mesmo admitindo os problemas no grupo, o BES só precisava de tempo para os ultrapassar. Com a medida de resolução, chegou a «destruição».
 
Primeiro, Salgado tentou um apoio público para o GES. Depois, assegurou que havia interessados numa recapitalização privada do banco. Só que as as exigências «impossíveis» do Banco de Portugal deitaram tudo a perder.
 
O ex-presidente do BES alegou ainda que foi a «indecisão» do governador Carlos Costa na questão da sua sucessão que provocou a «desconfiança» no banco e, consequentemente, a «volatilidade das ações e a fuga de depósitos». E são estas que entende que foram as causas do colapso, não qualquer problema de gestão do GES ou as contas ocultadas na ESI.
 
2 – Quase todos apontam o dedo a Salgado


 
O ataque de Ricardo Salgado ao Banco de Portugal já foi o segundo capítulo deste filme. Antes, já o governador Carlos Costa tinha concluído que ocorreram «esquemas fraudulentos» no GES, alegando as «confissões» do ex-presidente do BES e do contabilista, nas entrevistas que deram em maio. Uma conclusão que foi mais tarde sustentada pela auditoria encomendada à Deloitte, que apontou quatro atos de gestão ruinosa e 21 desobediências de Salgado às indicações do BdP.
 
Por outro lado, o banqueiro também foi desmentido por Francisco Machado da Cruz, o ex-contabilista do grupo, que garantiu aos deputados que a ordem para a ocultação de dívida da ESI partiu de Ricardo Salgado.
 
O ex-presidente do BES também foi encurralado pelos membros do Conselho Superior do GES, o órgão que juntava à mesa os cinco ramos da família. Os mais críticos foram José Maria Ricciardi, que acusou Salgado de ter uma postura «ditatorial» e de «empurrar os problemas como uma bola de neve», e Pedro Mosqueira do Amaral, que assumiu que era Ricardo Salgado a mandar em tudo e a apresentar as suas decisões aos outros administradores quando estas já estavam «em vigor».
 
Mais brandos foram José Manuel Espírito Santo Silva, que ainda assim admitiu que a manipulação das contas terá resultado de uma «combinação» entre Salgado e outros responsáveis da tesouraria do grupo, e Manuel Fernando Espírito Santo, que apenas reconheceu as «críticas relevantes» a Ricardo Salgado «desde setembro de 2013».

3 – Os Carlos trocam denúncias


 
A comissão de inquérito serviu de ringue à luta entre os dois supervisores. A falta de coordenação entre Banco de Portugal e CMVM no caso BES/GES saltou à vista de todos e pode ter contribuído para que muitos investidores tenham perdido dinheiro com o colapso.
 
O governador do BdP, Carlos Costa, admitiu que soube primeiro dos problemas no GES e que não os comunicou de imediato ao outro regulador, sobretudo por falta de provas além dos indícios. No entanto, chutou para a CMVM a responsabilidade de informar o mercado desses mesmos problemas.
 
Já Carlos Tavares queixou-se de «falta de informação» por parte do Banco de Portugal para poder ter atuado mais cedo e assegurou que, no momento do último aumento de capital do BES, não tinha na sua posse qualquer indicação de «irregularidades» que o fizesse ter agido de outra forma.
 
O debate entre os dois supervisores no Parlamento focou-se sobretudo no telefonema do dia 1 de agosto, quando Carlos Costa ligou a Carlos Tavares com receio de uma «fuga de informação» do que estava prestes a acontecer. O governador disse que o fez apenas por estar a acompanhar a descida da cotação das ações, algo que o presidente da CMVM interpretou como normal, tendo em conta os prejuízos do banco, anunciados dois dias antes.
 
Só na segunda audição é que o governador do Banco de Portugal admitiu que, nessa sexta-feira, com a medida de resolução na cabeça, não informou a CMVM da mesma, acelerando a suspensão das ações. Também da segunda vez que foi ouvido, Carlos Tavares confirmou que 80 investidores estão a ser investigados por terem vendido as suas ações do BES de forma «expressiva» nos momentos antes do colapso. Ou seja, enquanto uns parecem ter adivinhado o fim do banco, outros, mais «pequenos», compraram ações mais baratas, mas ficaram com o prejuízo nas mãos.

4 – Governo critica todos, menos a si próprio


 
De todos os responsáveis políticos que tiveram reuniões com Ricardo Salgado em abril e maio de 2014 e que, portanto, terão sido alertados para os problemas no BES/GES, apenas dois foram à comissão de inquérito: a ministra das Finanças e o vice-primeiro-ministro. Já Passos Coelho e Carlos Moedas responderam por escrito, enquanto Cavaco Silva foi dispensado pelos deputados da maioria PSD-CDS.
 
As versões foram coincidentes: nunca o Governo teve intervenção nem nos meses anteriores ao colapso, nem no momento de optar pela medida de resolução. Todas as decisões couberam ao Banco de Portugal e os membros do Executivo apenas foram sendo informados destas.
 
Maria Luís Albuquerque foi a mais interventiva, criticando os responsáveis do BES e do GES pelos «erros de gestão muito graves», os auditores por «não terem visto o que deviam» e os supervisores - Banco de Portugal e CMVM - por não os terem visto «mais cedo». Para a ministra, portanto, houve «falhas ao longo do processo» da parte de toda a gente, menos do Governo.
 
Quanto à medida de resolução, disse Maria Luís, era um «poder» que estava nas mãos de Carlos Costa, uma versão que tanto os deputados da oposição como alguns dos intervenientes ouvidos na comissão de inquérito não compram. O presidente do BPI, Fernando Ulrich, por exemplo, afirmou mesmo que ficou com a «impressão» que esta foi «imposta pelo Governo». PS, PCP e BE lembraram, por sua vez, que para o BdP ter optado pelo fim do BES, precisou de uma alteração legislativa que o Governo aprovou dias antes, provando uma maior interferência do que os membros do Executivo admitem.

5 – A zanga dos primos e das irmãs
 
Esta é uma novela que mete coisas tão sérias como poder e golpes de estado financeiros e coisas tão saborosas como bolos e contrapartidas. Começou em 2013, com as notícias que davam conta do conflito entre o Grupo Queiroz Pereira e o Grupo Espírito Santo e do clima de tensão entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi quanto à sucessão do BES/GES.
 
E acabou (para já) na comissão de inquérito, onde foram ouvidos os três protagonistas. Pedro Queiroz Pereira foi o primeiro a admitir o «conflito latente» com Ricardo Salgado, devido à tentativa de controlo da Semapa através da compra de participações das suas irmãs. E, já que se falava em famílias, o presidente da Semapa e ex-acionista do GES chegou mesmo a acusar Salgado de não estar a defender as suas próprias irmãs, que andavam «a fazer bolos para vender» para fora.
 
A resposta veio meses mais tarde: Ricardo Salgado alegou ter uma «excelentíssima relação» com as irmãs e lembrou que as de Queiroz Pereira até para tribunal foram contra o irmão.
 
Já na primeira audição, o ex-presidente do BES deixou no ar a ideia de que o primo Ricciardi poderá ter recebido uma «contrapartida» por ter feito uma denúncia ao Banco de Portugal sobre os problemas no GES, iniciando o processo de sucessão. Algo que foi veementemente negado pelo presidente do BESI, que lamentou esta «infâmia» e confessou sentir-se «traído» pelo primo Salgado.