O presidente do BIC Portugal, Mira Amaral, avisou esta quarta-feira que a Europa «não deve ser ingénua» ao negociar a parceria transatlântica de comércio com os Estados Unidos, alertando para o facto de os americanos serem «muito protecionistas».

«Da minha experiência anterior no Governo, a União Europeia normalmente é muito ingénua a fazer estes acordos. Abre imediatamente aos outros e os outros não abrem a nós. Há que ter em atenção que os americanos são muito protecionistas, na agricultura e na própria indústria», disse Mira Amaral, após um encontro com os secretários de Estado adjunto e da Economia, Leonardo Mathias e dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães.

O presidente do banco BIC Portugal foi um dos 30 responsáveis de empresas cotadas em bolsa e exportadoras para os EUA que foram ao ministério da Economia expressar as suas preocupações relativamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento União Europeia¿Estados Unidos da América, antes da quarta ronda negocial que decorre entre 10 e 14 de março, em Bruxelas.

Teoricamente uma zona de livre comércio iria implicar a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais entre Estados Unidos e União Europeia e harmonização de tarifas alfandegárias e não alfandegárias, mas Mira Amaral aponta para «uma óbvia assimetria» entre os dois blocos.

Enquanto empresas e governo dos Estados Unidos estão juntos na defesa dos seus interesses, na Europa «essa articulação entre a Comissão Europeia e as empresas europeias não existe».

«Teoricamente, União Europeia e Estados Unidos professam os mesmos valores em termos de democracia e economia de mercado, mas os americanos são mais protecionistas e menos ingénuos do que nós», sublinhou, dando como exemplos, as indústrias de defesa europeias cuja entrada é «barrada» nos EUA, e a legislação «buy american» que significa que as empresas americanas devem comprar americano, enquanto na Europa se lançam concursos internacionais para os fornecimentos.

Mira Amaral lembrou ainda que os Estados Unidos integram uma zona de comércio livre alargada que junta também o Canadá e o México, o que pode trazer efeitos negativos para a indústria portuguesa.

«O México é a mais asiática das periferias americanas, no sentido em que fornece componentes, moldes e faz montagens para a indústria americana. Nós, aqui na Europa, somos também a mais asiática das periferias europeias (...) Não se esqueçam que quando fazemos um acordo destes quando damos por ela estamos a competir com os mexicanos que fornecem o mercado americano», explicou.