Os proprietários da loja centenária da Fábrica Sant´Anna, em Lisboa, têm de fechar portas a partir de quinta-feira na sequência da ordem de despejo dada pelo senhorio, que ali pretende construir um hotel, mas garantem que dali não saem.

Quinta-feira “foi o dia que nos foi dado para o despejo, mas vamos contestar, por via judicial, e não vamos sair”, assegurou à agência Lusa o diretor comercial da loja, Francisco Tomás.

Criada em 1916, a centenária loja da Fábrica Sant´Anna, de venda de peças de cerâmica, recebeu em abril uma ordem de despejo do imóvel onde se encontra, no Largo Barão de Quintela e com entrada pela Rua do Alecrim, a concretizar até ao fim do ano, para ali ser construído um hotel pelo grupo Visabeira.

Em resposta escrita enviada à Lusa, a Vista Alegre Atlantis, detida pelo Visabeira, indica que o futuro hotel “é inspirado na obra de Bordallo Pinheiro e no vasto património artístico” da empresa.

“O atual estado de degradação geral bastante evidente do imóvel e a construção da infraestrutura hoteleira implicam, tanto do ponto de vista técnico como legal, que sejam realizadas obras de remodelação”, frisa a mesma entidade, referindo que as intervenções “oferecem perigo para a segurança das pessoas e, mais concretamente, dos atuais inquilinos de frações do imóvel e que, por essa razão e ao abrigo da legislação do arrendamento, conferem ao senhorio o direito de denunciar ou fazer cessar os contratos existentes”.

Segundo a empresa, o projeto de arquitetura já foi aprovado pela Câmara de Lisboa, posição transmitida à Vista Alegre no início de janeiro.

“Tratando-se de uma intervenção numa preexistência, a proposta é marcada por condicionantes programáticas, funcionais e volumétricas decorrentes da vontade de garantir a valorização e dignificação do património, bem como da promoção de uma requalificação e reabilitação urbana integrada no contexto da cidade histórica consolidada”, salienta-se.

A empresa adianta que, sendo um edifício inserido no conjunto de interesse público da Lisboa pombalina, “cujas características arquitetónicas interessa manter e preservar, propõe-se que os trabalhos se centrem essencialmente na reformulação interior dos espaços e percursos, adaptando-os a quartos, suites, zonas de estar e necessárias zonas técnicas e de serviço”.

Prevê-se que as obras terminem no final de 2016 e custem perto de 5,1 milhões de euros.

Esta decisão não agrada a Francisco Tomás, para quem “não faz nenhum sentido” que a construção do hotel implique o fecho da loja de cerâmica.

“Até à data da informação do despejo, estávamos em conversações [com a Vista Alegre Atlantis] e as coisas estavam a encaminhar-se para uma solução boa para ambas as partes. De um momento para o outro, cortaram as ligações”, contou.

Segundo o responsável, a Câmara de Lisboa “tem sido incoerente em todo este processo”, já que garantiu que iria “mediar o processo e participar numa solução” e, ao mesmo tempo, autorizou o projeto.

Francisco Tomás informou também que “foi pedida à Câmara a classificação da loja como [sendo] de interesse municipal”, o que a autarquia recusou.

“É a última loja de azulejos na cidade […] e não é uma loja de interesse?”, questionou.

A agência Lusa contactou a Câmara de Lisboa remeteu uma resposta para mais tarde.