A greve dos ferroviários já começa a fazer-se sentir. Aos poucos, e ao longo do domingo, com mais incidência ao cair da noite, quem queria viajar de comboio foi deixando de conseguir fazê-lo. 

Em Santa Apolónia, Lisboa, a TVI falou com Miguel Jalôto, o cidadão que ia apanhar o comboio das 21:30 para o Porto. "Já tinha tentado comprar o bilhete pela internet e o site da CP não tinha qualquer indicação desta situação. O comboio apareceria disponível, mas quando estava a processar a compra não foi possível. Achei que conseguia comprar o bilhete aqui e na bilheteira disseram-me, com a maior desfaçatez, que, por causa da greve de amanhã, este comboio já não ia circular."

Miguel Jalôto disse que ainda tentou um autocarro, mas que já há muita gente a tentar o mesmo, por isso não conseguiu e vai ficar a pernoitar em casa de uma amiga. 

O potencial cliente da CP, que agora não conseguiu viajar, disse desconhecer as razões da greve e lamentou, independentemente de qualquer opinião, que as pessoas não sejam informadas.

Segundo a CP, quase 140 ligações de comboio foram suprimidas até às 22:00 devido à greve dos trabalhadores ferroviários que se inicia esta segunda-feira. De acordo com os dados fornecidos por fonte oficial da CP, até às 22:00 de hoje foram suprimidas 137 ligações de comboio, das quais 15 de longo curso, 85 regionais e 37 do serviço urbano do Porto.

A greve é contra a possibilidade de circulação de comboios com um único agente, o que, segundo os sindicatos, põe em causa a segurança ferroviária. Segundo os sindicatos subscritores do pré-aviso, “é preciso que não subsistam dúvidas no Regulamento Geral de Segurança” (RGS).

Também à TVI, o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, disse que a greve tem a ver com dois motivos essenciais: "o fato de o Governo não se ter comprometido a assinar um documento, com uma reivindicação do sindicato, que permitia a manutenção dos postos de trabalho, que podem estar em perigo, se este regulamento for para a frente. Em segundo lugar, com a manutenção destes postos de trabalho, assegurar a segurança dos utentes."

Na estação do Rossio, também em Lisboa, a equipa de reportagem da TVI pode assistir ao cancelamento do comboio das 22:31 com destino a Sintra, quando está previsto que haja transporte até às 1:00, e a indicação de que o próximo só se realiza às 6:00 de segunda-feira. Entretanto, os passageiros foram-se amontoando no terminal.

Greve dos ferroviários sem justificação, garante Governo

Por seu lado, o Governo diz que a greve na CP marcada para segunda-feira “não tem justificação material” e explica que os sindicatos marcaram a paralisação contra um regulamento que existe desde 1999, que nunca foi alterado e nem vai ser.

“Não conseguimos perceber, o Governo não fez nenhuma alteração nestes dois anos e meio e não conta fazer nenhuma alteração”, disse hoje aos jornalistas o secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme d´Oliveira Martins a propósito da greve dos trabalhadores ferroviários da CP, Medway e Takargo agendada para segunda-feira.

Oliveira Martins explicou que a norma faz parte do RGS, de 1999, que nunca foi alterado nem por este nem por governos anteriores “e que mantém como regra os dois agentes e, em algumas exceções, admite, com restrições e sujeito a fiscalização, o agente único”.

Além disso, acrescentou o responsável, a CP tem uma norma interna que apenas permite os dois agentes em circulação, “não admitindo agente único”.

“Portanto, há aqui uma falta de justificação” e vai haver um prejuízo para os utentes por algo que o Governo entende que não se justifica, disse o secretário de Estado.

Salientando que o Governo respeita o exercício do direito à greve, Oliveira Martins insistiu que esta se realiza por causa de uma norma que não é alterada há 20 anos.

E, perante a possibilidade de, na próxima semana, haver mais dois dias de greve, o secretário de Estado disse: “O Sindicato dos Revisores invoca que é uma batalha pelo agente único. O Sindicato aceitou a vigência do Regulamento (RGS)desde 1999 e agora vem dizer que quer alterar a regra”.

E a regra, disse Oliveira Martins, “cumpre os standards europeus”, já que em toda a Europa apenas na Roménia é proibido o agente único, sendo que em todos os outros países a regra é os dois agentes e o agente único excecionalmente.