O presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) foi à comissão de inquérito dar novos dados sobre a investigação ao eventual abuso de informação privilegiada na negociação de ações nos últimos dias do Banco Espírito Santo, revelando que foram abertos cerca de 80 processos.
 

«É um trabalho delicado e exigente, porque temos de ver quem está no fim da cadeia. Já foram identificados praticamente todos os comitentes das operações realizadas na última semana do BES. A última semana não tem segredo para nós».


Carlos Tavares, que está a ser ouvido pela segunda vez pelos deputados, informou, por isso, que a CMVM está preparada para «acusar» nos casos em que consiga «provar» a utilização de informação privilegiada.

Segundo o presidente da CMVM, foram abertos processos de averiguações preliminares «a cerca de 80 investidores» pela «venda expressiva de ações» nos últimos dias antes da medida de resolução.
 

«Entre os investidores averiguados, predominam os institucionais, maioritariamente estrangeiros, os particulares, maioritariamente nacionais, os insiders permanentes, com ligação ao BES, e algumas sociedades offshores».


Daí, Carlos Tavares avisar que «não pode excluir-se a possibilidade de existirem algumas participações ao Ministério Público». Neste momento, acrescentou, há ainda um «conjunto de casos que suscitam dúvidas» e que «carecem de diligências adicionais».

Sobre quando é que os resultados dessa investigação, com mais pormenores, poderão ser públicos, não se comprometeu com datas. Respondendo à deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, Carlos Tavares disse apenas que, «até à comunicação ao Ministério Público, a comunicação terá de ser bastante reservada».

Referindo que não gosta de invocar segredos para não falar, desta vez não conseguiu escapar a eles: «O nosso segredo profissional, o segredo de justiça e há também a questão do segredo comercial», elencou.

Sobre a venda de ações nos últimos dias do banco, o presidente da CMVM sublinhou ainda que o comunicado do dia 11 de julho, do Banco de Portugal, que pretendia transmitir «tranquilidade» com a almofada de capital BES em relação à exposição ao GES, «foi entendido» por alguns investidores institucionais como «informação relevante, mas negativa», levando-os a reduzir a sua exposição.

«Não pode dizer-se o mesmo dos particulares», acrescentou Carlos Tavares. Das palavras do líder do regulador do mercado de capitais pode entender-se que a ação do Banco de Portugal contribuiu para aumentar os prejuízos dos investidores particulares, reduzindo os dos investidores institucionais.

De acordo com as contas da CMVM, só nos dois últimos dias do banco foram negociadas 235 milhões de ações. «Os particulares compraram mais ações nesses dias do que no aumento de capital [do BES]», lamentou.

Quanto aos investimentos em papel comercial do GES, que deixaram os clientes sem nada, com a resolução, Carlos Tavares defendeu que é uma «obrigação mais do que moral» reembolsá-los. A imprensa económica divulgou, esta terça-feira, que a solução proposta pelo Banco de Portugal implica perdas superiores a 50% do dinheiro investido e que a CMVM também não concorda. Sobre esta proposta, em específico, Carlos Tavares não falou.