Os estrangeiros apaixonaram-se por Lisboa e o mercado imobiliário da cidade apaixonou-se pelos preços. A culpa não é da Madonna, mas é um facto que há T0 a custarem centenas de milhares de euros, apenas porque estão situados em zonas mais turísticas que nobres, como Alfama, onde o m2 facilmente ultrapassa os 10.000 euros.

Um casal, com ou sem filhos, ou até um solteiro, trabalhador por conta de outrem e com um rendimento mensal de 1000 euros, o que para a realidade nacional é um salário acima da média, terá muitas dificuldades em comprar uma casa no centro de Lisboa, se depender exclusivamente do seu rendimento.

Quem vende quer aproveitar o mercado em alta e percebe-se porquê. Basta percorrer os sites de agências imobiliárias para ver que não faltam interessados em casas localizadas no centro histórico ou em bairros considerados nobres, como, por exemplo, Alvalade, Avenidas Novas e Parque das Nações. “Vendido” ou “Reservado” é o que consta em muitos anúncios.

Por exemplo, uma casa em Alfama com apenas 33 m2 de área útil foi vendida por 330 mil euros (sim, leu bem, e não há aqui qualquer gralha). Mas mais m2 em zonas históricas também implicam mais dinheiro, como uma casa renovada em São Vicente, com 117 m2, por 850 mil euros. No Príncipe Real há um apartamento com 24 m2 à venda por 285 mil euros e, nos Anjos, 40 m2 valem 310 mil euros.

Na galeria de imagens associada há vários exemplos do que Lisboa tem para oferecer: de um lado, casas usadas e renovadas, pequenas e caras; do outro, casas usadas e antigas, pequenas e caras. A maior parte sem garagem ou arrecadação e algumas com a casa de banho mesmo ao lado da cozinha. No Porto, o cenário é melhor: casas maiores e mais baratas, muitas com estacionamento.

A procura fez disparar os preços, particularmente a procura que chega do Brasil, de França ou do Reino Unido, com os chineses mais interessados nos vistos gold, ou seja, na compra de imóveis de valor igual ou superior a 500 mil euros.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao segundo trimestre de 2017, o m2 em Lisboa (cidade) para alojamentos familiares foi quase três vezes superior à média nacional: 2231 euros/m2, o que representa um crescimento de 15,1% relativamente ao período homólogo. Se falarmos da Área Metropolitana de Lisboa, destacam-se ainda Cascais (1800€/m2) e Oeiras (1481€/m2), mas os preços dispararam de tal forma que em Lisboa as casas usadas chegam a ser mais caras que as novas em municípios como Cascais.

Também muito acima da média nacional de 896€/m2 estão Porto (cidade), com 1171€/m2, ainda assim cerca de metade do valor atingido em Lisboa, e Algarve, com Loulé (1650€/m2) e Lagos (1555€/m2) a serem as zonas mais lucrativas para quem vende.

Onde está a Lisboa cara

É na freguesia de Santo António, onde se situam a Avenida da Liberdade e o Marquês de Pombal, que se regista o preço mediano de venda de alojamento mais elevado da cidade: 3294€/m2, o que representa um aumento de 46,1%.

Segue-se a Misericórdia – Bairro Alto, Chiado, Príncipe Real e Cais do Sodré -, com um preço mediano de 3244€/m2, que se traduz numa subida de 38,2%, igualmente no espaço de um ano.

Também na Estrela (2589€/m2), Belém (2514€/m2), Alvalade (2467€/m2) e São Vicente - Graça (2300€/m2) as vendas foram acima da média, com uma subida entre 20 e 30% no preço.

Há depois os bairros caros que continuam caros e que continuam em crescimento, ainda que não tão expressivo, entre os 8 e os 16%, como Parque das Nações (3124€/m2), Santa Maria Maior – Alfama (3195€/m2), Avenidas Novas (2433€/m2) e Campo de Ourique (2417€/m2).

Do lado oposto estão freguesias como Olivais, Beato, Santa Clara e Marvila, onde o m2 são uns contrastantes 1500 euros.

No Porto, na chamada zona nobre, a União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde registou o preço mediano mais elevado (1743€/m2), ou seja, mais 5,3% que há um ano.

Mas a grande subida teve lugar no centro histórico, na União de Freguesias da Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, que se destacou entre as sete freguesias da cidade com uma subida de quase 22% (1237€/m2). Já Campanhã é a que tem menor procura, com 786€ o m2.

Para Lisboa, o barómetro do portal CASASAPO fez as contas à subida de preços nos últimos três meses do ano.

O preço médio para a compra de um apartamento usado situou-se nos 409.005 euros, enquanto novo atingiu os 561.897€.

Já no Porto, o preço médio tanto para uma casa nova como usada foi de cerca de 300 mil euros.

Preços vão continuar a subir

Portugal registou a terceira maior subida (10,4%) entre os Estados-membros no preço das habitações, segundo o Eurostat, tendência que vai manter-se nos próximos dois anos, em torno dos 5%, prevê a agência de notação financeira Fitch, que esta semana divulgou o seu relatório sobre tendências do mercado de habitação.

Os (apenas) 5% explicam-se pela oferta limitada de imóveis e pela procura mais confiante, sustentadas por um melhor contexto macroeconómico.

Lisboa, Porto e Algarve são, previsivelmente, as regiões que vão crescer acima da média, por serem “locais com mercados de trabalho mais fortes do que outras regiões e que são influenciados por investidores imobiliários corporativos que visam capitalizar as oportunidades de mercado”.

A Fitch sublinha, ainda, que a subida dos preços da habitação prevista para os próximos dois anos vai continuar a criar dificuldades a quem pretende comprar casa pela primeira vez, uma vez que o rendimento das famílias não acompanha a tendência de crescimento do mercado imobiliário.

O Banco Central Europeu estima um crescimento de 35% para os novos empréstimos bancários para aquisição de casas em 2017.