Franze as sobrancelhas, hesita e com ar de espanto responde ao deputado do PSD sobre se alguma vez tomou diligências para promover a venda do Banif ao Santander: "Eu? Pessoalmente? Nunca intervi no processo de venda nessa dimensão que está, acho eu, a sugerir".

As declarações do ministro, no dia 7 de abril, voltam a ser notícia. Nesse dia, na audição, o deputado do PSD Miguel Morgado não ficou satisfeito e insistiu:

- Nunca fez nenhuma diligência com mais ninguém para persuadir as entidades europeias a resolver este assunto com o Santander?

- Não.

- Nunca?

- Não.

Nem a referência a Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu, arranca uma resposta diferente ao ministro das finanças. Mas, na verdade, um e-mail do BCE a que a TVI teve acesso aponta noutro sentido: Danièle Nouy, responsável pelo conselho de supervisão, revela que, através de uma chamada telefónica, Mário Centeno e Vítor Constâncio lhe pediram para que desbloqueasse a oferta do Santander junto da Comissão Europeia.

"Tive um telefonema, ontem, com Vítor Constâncio e o ministro das Finanças a pedirem-me para desbloquear a oferta do Santander junto da Comissão Europeia. [...] Neste momento, a Comissão Europeia e o Santander estão prontos para avançar quando as autoridades portugueses também estiverem. [...] A minha recomendação é para que sejam rápidos", escreve Danièle Nouy

 

 

Carta de Danièle Nouy sobre telefonema de Mário Centeno e Vítor Constâncio

"Amaciamento" para vender Banif ao Santander

A carta contradiz as declarações do ministro das Finanças no Parlamento. Um facto grave que, a confirmar-se, deve ser "cabalmente esclarecido". O PSD fez questão de marcar uma conferência de imprensa onde pediu uma nova audição de Mário Centeno com a máxima urgência.

"O Sr. ministro das finanças prestou um depoimento falso à comissão de inquérito. A ser assim, tanto ele como o Dr. Vítor Constâncio, provavelmente concertados, não o sabemos, pediram ao BCE uma intervenção de amaciamento dos serviços da Comissão Europeia para aceitarem a entrega do Banif ao Santander".

O conteúdo deste e-mail, para o PSD, é de uma gravidade tal que deve ser esclarecido imediatamente. 

O PS rebate esta carta com outra também do BCE, onde o Banco Central avisava o Governo e o Banco de Portugal que não valia a pena perder mais tempo a analisar outras propostas que não a do Santander. Com base nesta premissa, João Galamba, do PS, apressou-se a dizer que viabilizará a nova audição, mas que as acusações do PSD não têm qualquer fundamento e são apenas mais uma das muitas "cortinas de fumo" que tentam criar.

Afinal, houve favorecimento ao Santander?

É isso que o ministro das Finanças vai ter de explicar detalhadamente aos deputados.

Depois da carta de Danièle Nouy, do BCE, o Banif foi resolvido e vendido ao Santander com um prejuízo para o Estado superior a dois mil milhões de euros. A nova audição não tem ainda data marcada, mas Centeno já se demonstrou disponível.

O contrário não seria de esperar já que os responsáveis públicos são obrigados a prestar esclarecimentos quando uma comissão de inquérito assim o exige.