O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, acusou hoje empresas de trabalho temporário de prestarem serviço permanente em "muitos 'call centers'", o que considerou ilegal, exigindo ao Governo que não continue a "olhar para o lado".

"Uma empresa de trabalho temporário supostamente devia prestar trabalho temporário", mas há empresas em "muitos 'call centers' [centros de atendimento telefónico]" que "estão a prestar serviço permanente. Logo, há uma ilegalidade", afirmou o líder da central sindical.

Arménio Carlos falava aos jornalistas durante uma concentração de trabalhadores dos 'call centers' da companhia de seguros Fidelidade em Évora, situados no Parque Industrial da cidade alentejana.

O líder da CGTP referiu que a solução para estes trabalhadores passa por serem integrados "nos quadros de efetivos da Fidelidade", com "os mesmos salários dos outros trabalhadores e os mesmos direitos".

"É assim que se ataca a precariedade e não é com algumas das medidas que o Governo apresentou para um suposto acordo, que mais não visam do que perpetuar a precariedade", realçou, sublinhando que "o Governo não pode continuar a olhar para o lado e a fingir que não vê aquilo que é uma realidade".

Arménio Carlos desafiou o executivo de António Costa a visitar o 'call center' da Fidelidade em Évora para "ver como é que as coisas funcionam", considerando que, "se não o fizerem, tornam-se cúmplices da precariedade em vez de serem agentes da resolução".

"O Governo sabe perfeitamente que a esmagadora maioria dos 'call centers' funciona de forma ilegal. Ou seja, recorrem sistematicamente ao trabalho temporário para prestarem serviço de caráter permanente", acrescentou.

Muitos vestidos de vermelho, estes trabalhadores, que cumprem hoje uma greve de 24 horas, concentraram-se à porta da empresa, empunhando cartazes com frases como "No 'call center' de Évora há trabalho escravo" e "trabalhadores do 'call center' sem direitos dão lucro de 286 milhões", entre outras.

Sandra Linhol, trabalhadora do 'call center' da Fidelidade e delegada sindical, advertiu que, neste centro, "a precariedade já dura há alguns anos", adiantando que há trabalhadores com contrato precário "há 16 anos 17, 10 e 12".

"Os contratos, por norma, são de quatro ou seis horas sempre com adendas de mais duas ou mais quatro horas", notou, indicando que, ao mesmo tempo, existe "uma grande diferença de salários" em relação aos funcionários das agências da seguradora.

Segundo a delegada sindical, a média de salários no 'call center' de Évora é de "cerca de 500 euros", enquanto nas agências, independentemente do escalão, um funcionário pode levar para casa "900 euros, mil euros ou mais".

"Trabalhamos na Fidelidade, emitimos contratos de seguros, esclarecemos clientes, emitimos cartas verdes, fazemos gestão de reclamações, damos apoio a agências e departamentos", esclareceu, observando que "o trabalho é igual, o salário é que não".

Também em declarações aos jornalistas, o diretor executivo da Newspring, Jorge Fróis, a empresa que gere o 'call center' e presta serviços para a Fidelidade, garantiu que está atento às exigências dos trabalhadores.

"A prova é o nosso último inquérito aos colaboradores, que teve um índice de satisfação superior a 90%", frisou, considerando que "não faz muito sentido esta mobilização" tendo em conta as condições que têm sido dadas aos trabalhadores.

O mesmo responsável adiantou que, neste dia de greve, por volta das 10:30, estavam em falta 153 dos 682 trabalhadores do centro de atendimento.

Também Miguel Vilaça, da Fidelidade, explicou aos jornalistas que a companhia de seguros "subcontrata alguns serviços que são especialistas" por entender que consegue "servir melhor" os seus clientes.

"Temos um cuidado rigoroso neste contrato que fazemos com a obrigação escrupulosa de cumprir todas obrigações legais que as empresas prestadoras de serviços têm com os colaboradores e, até à data, as indicações que temos é que estão a ser cumpridas", realçou.

Fontes sindicais adiantaram à Lusa que, esta manhã, devido à greve, convocada pelo Sindicato Nacional dos Profissionais de Seguros e Afins, algumas linhas de serviço da Fidelidade não estavam a funcionar e outras tinham um número reduzido de assistentes.