Há salões de beleza, entre cabeleireiros e spa, por exemplo, que fazem cirurgias plásticas ilegais, feitas por pessoas sem qualificações ou médicos de especialidade. A denúncia é feita pela Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética e, igualmente, pela Ordem dos Médicos.

O cirurgião plástico Celso Cruzeiro, presidente da primeira entidade alerta para a gravidade e consequências desastrosas dessas cirurgias. À agência Lusa, o especialista salientou que a cirurgia estética sofreu um desenvolvimento muito grande nos últimos tempos, que levou "uma série de oportunistas e clubes de saúde e de massagens, SPA e cabeleireiros" a praticarem atos para os quais não têm competência.

"Cada vez mais assistimos a processos em tribunal e na Ordem dos Médicos por problemas causados aos doentes que se submetem a intervenções por pessoas não habilitadas"

Ao Jornal de Notícias, que faz hoje manchete com o assunto, a Ordem dos Médicos denuncia também que há procedimentos, que deviam ser praticados exclusivamente por médicos, que são efetuados por pessoas sem qualificações como massagistas e esteticistas. são pessoas que, segundo a Ordem, aprendem em cursos de três dias, com ilustrações, onde devem espetar agulhas. 

A maioria das cirurgias praticadas respeita a atos aparentemente simples, como preenchimento faciais, lipoaspirações, mamoplastias e aplicação de injetáveis como botox, mas que "exigem conhecimentos básicos para serem aplicados", faz igualmente notar o presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica. Essas intervenções são, portanto, feitas fora de blocos operatórios e sem os meios técnicos e humanos adequados, potenciando ainda mais os riscos dos pacientes.

O cirurgião, que é também diretor do serviço de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e de Queimados do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, baseia-se  num inquérito da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica para dar também conta que é o baixo preço que condiciona as pessoas que se submetem a este tipo de cirurgias, "que só cirurgiões plásticos estão preparados para fazer".

O especialista critica a má fiscalização e a não aplicação da legislação, criticando que entre os regulamentos e a sua aplicação vai "uma distância enorme".

Perigosas consequências

São "problemas alarmantes" e de "saúde pública", nas palavras do cirurgião Nuno Fradinho, também da direção Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética.

"Metade das complicações mais graves que chegam aos hospitais - desde deformidades permanentes até problemas como perfurações viscerais ou tromboembolismos - são praticados por médicos que não estavam habilitados à prática de cirurgia plástica"

Nuno Fradinho alerta que as pessoas que recorrem àquelas cirurgias têm "muita dificuldade em se queixar e a admitir que a intervenção correu mal", o que dificulta o apuramento de responsabilidades.

Cirurgião no Centro Hospitalar de Lisboa Central, diz ainda que as pessoas que se submetem a cirurgias plásticas ou estéticas deviam, antecipadamente, identificar o interveniente e averiguar a sua credenciação.

"Ao quererem fazer poupanças nos materiais, as pessoas colocam, muitas vezes, a sua saúde em grave perigo pelo recurso a substâncias e a próteses de baixa qualidade, além de que do ponto de vista estético acabam por ficar muito pior do que estavam"

Este tema que vai merecer especial atenção no III Congresso Ibérico de Cirurgia Plástica, que vai decorrer entre os dias 2 e 4 de junho, no Estoril, de forma a colocar na agenda "um dos problemas de saúde mais graves e menos conhecidos do nosso país". Celso Cruzeiro alerta que se tem vindo a agravar, "prejudicando verdadeiramente a saúde dos doentes".