A União Europeia sublinhou hoje as potencialidades de um acordo de livre comércio com o Mercosul e assegurou que nenhum destes países latino-americanos pediu para encetar negociações individuais nem alterar a agenda da ronda negocial, ainda este ano.

«A União Europeia mantém-se empenhada em concluir um acordo ambicioso, amplo e equilibrado com o Mercosul», disse à agência espanhola EFE o porta-voz comunitário do Comércio, John Clancy, quando questionado sobre uma possível divisão das negociações, na sequência da notícia de hoje do Financial Times, que cita o ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro a dizer que pretende propor negociações individuais com a Europa ainda este mês.

«Nós estamos a negociar com o Mercosul como um bloco. No encontro de ministros da Mercosul e da UE em 26 de janeiro, em Santiago, os países do Mercosul comprometeram-se em abrir as portas dos seus mercados até ao último trimestre do ano», disse o porta-voz, acrescentando que «até agora não houve nenhuma proposta de qualquer membro do Mercosul para mudar esta agenda ou a natureza das negociações em curso» entre os dois blocos económicos.

O Brasil está a ponderar apresentar uma proposta para um acordo comercial com a União Europeia para além daquele em negociação entre a Europa e outros quatro países da América Latina, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro.

Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, António Patriota avançou que a intenção é apresentar a proposta no final deste mês, não revelando, no entanto, os contornos da tentativa de acordo comercial.

«Há condições objetivas para fazermos avanços no campo do acordo entre a Mercosul e a União Europeia, mas há também a ideia de que cada país pode avançar separadamente, a velocidades diferentes», disse.

De acordo com a análise do Financial Times, a intenção do Brasil está relacionada não só com o atraso no acordo entre a União Europeia e os cinco países do Mercosul (Brasil, Argentina, Venezuela, Paraguai e Uruguai), mas também com o próprio crescimento económico do Brasil, que para o ano perde o estatuto preferencial na relação económica com a União Europeia por ter sido reclassificado como um país de rendimento médio/elevado.

O Brasil, a quarta economia da América Latina, foi responsável, em 2011, por 37% do comércio entre a Europa e os países da América Latina, valendo cerca de 80 mil milhões de dólares (pouco mais de 60 mil milhões de euros), de acordo com os números da Comissão Europeia.

Os economistas e analistas contactados pelo Financial Times para comentarem a intenção aprovam a ideia, considerando que o Brasil corre o risco de ficar para trás por causa das demoradas negociações, que se arrastam desde há mais de uma década, e que um acordo com a Europa faz todo o sentido para o Brasil.

A UE e o Mercosul retomaram em 2010 as negociações que foram interrompidas em 2004, depois de terem começado em 1999 na tentativa de obter um acordo de livre comércio entre os dois blocos.

De acordo com fontes das negociações citadas pela EFE, o acordo foi dificultado pela vontade dos latino-americanos de quererem mais abertura para os produtos agrícolas, enquanto os europeus defendiam mais acesso para os produtos industriais.