O ministro das Finanças britânico falou pela primeira vez, publicamente, sobre o Brexit, três dias depois de conhecidos os resultados do referendo. George Osborne quis deixar uma mensagem para tranquilizar os mercados, garantindo que a economia do Reino Unido tem força para lidar com o embate.

"Quero tranquilizar o povo britânico, e a comunidade global. O Reino Unido está pronto para enfrentar o que o futuro nos reserva com uma posição de força (...) A nossa economia é tão forte quanto poderia ser para enfrentar o desafio que o nosso país enfrenta agora".

 
 
 
Por mais do que uma vez, no seu discurso, em conferência de imprensa, Osborne assegurou que as instituições do Reino Unido estavam a preparar-se "para o inesperado". "Estamos preparados, aconteça o que acontecer". 
 
Admite que o sim à saída da União Europeia não era o resultado que queria, mas em democracia é preciso saber aceitar o resultado.
 

Três motivos de preocupação

 
Há três coisas que preocupam o ministro das Finanças britânico, a começar pela volatilidade dos mercados, que é "suscetível de continuar". Seja como for, garante que o Tesouro britânico, o Banco da Inglaterra  e a Autoridade de Conduta Financeira se preparapam para este cenário.
 
"Passaram os últimos meses a pôr em prática planos de contingência robustos para o rescaldo financeiro imediato de modo a fazer face a este resultado".

O Banco de Inglaterra, de resto, logo interveio na sexta-feira de manhã mostrando-se pronto para injetar 250 mil milhões de libras, recordou o ministro das Finanças.

O segundo desafio é a incerteza que deverá perdurar nos próximos meses e depois disso, com o Reino Unido a ter de negociar com os aliados europeus a nova forma de se relacionarem. Com isto, manifestou também a intenção de adiar a invocação do artigo 50º do Tratado de Lisboa

"O primeiro-ministro deu-nos tempo como país para decidir como essa relação deve ser, atrasando a decisão de desencadear o procedimento do artigo 50º, até que haja um novo primeiro-ministro, no Outono. Apenas o Reino Unido pode ativar o artigo 50º, e na minha opinião só devemos fazê-lo quando houver uma visão clara sobre que novo enquadramento estamos à procura com os nossos vizinhos europeus", afirmou.

Até lá, tudo se mantém: os direitos das pessoas no trabalho e na circulação, o comércio de produtos e serviços, a regulamentação da economia. O ministro das Finanças disse-o, mas admitiu logo a seguir que "já é evidente" que algumas empresas estão a interromper investimentos e a deixar de contratar pessoas. Tudo isto só desde sexta-feira.

"[Mas] ninguém deve duvidar da nossa determinação em manter a estabilidade fiscal. Para todas as empresas grandes e pequenas, eu diria o seguinte: a economia britânica é fundamentalmente forte, altamente competitiva e aberta aos negócios".

 A prazo, será preciso agir em matéria de finanças públicas, mas claro que é perfeitamente razoável esperar até que tenhamos um novo primeiro-ministro" para avançar com esse processo.

O terceiro desafio é o de assegurar que o Reino Unido é capaz de alcançar um relacionamento económico de longo prazo com o resto da Europa, com "as melhores condições possíveis" para o comércio de bens e serviços.

Osborne coloca-se na dianteira deste processo, ao dizer que tem a intenção de desempenhar "um papel ativo neste debate", referindo a Europa, mas também a América do Norte, a Commonwealth e parceiros importantes como a China e a Índia. "Não quero que a Grã-Bretanha vire as costas à Europa ou ao resto do mundo".

E o futuro político? 

Indicou ainda que, nas últimas 72 horas, esteve em contacto com ministros europeus das Finanças, governadores dos bancos centrais, a diretora-geral do FMI, a secretária do Tesouro dos Estados Unidos e o presidente do Congresso, bem como os líderes de algumas das principais instituições financeiras no Rieno Unido, "para que coletivamente que mantenhamos um olhar atento sobre a evolução" pós-referendo.

Sobre o seu futuro no Partido Conservador, disse que os próximos dias serão decisivos. Também já foi apontado para suceder a David Cameron. O ministro Chris Graylling, pró-Brexit, disse hoje que há lugar para Osborne no novo governo. Mas isso também dependerá de quem vier a ser primeiro ministro.