O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, defendeu hoje, em Sintra, “um alinhamento” das políticas monetárias entre os vários bancos centrais para beneficiar a economia global.

“Podemos não precisar de uma coordenação formal das políticas, mas podemos beneficiar de um alinhamento das políticas. O que quero dizer com alinhamento é a partilha de um diagnóstico das causas dos desafios que nos afetam a todos e um compromisso partilhado de basear as nossas políticas internas nesse diagnóstico”, defendeu o presidente do BCE, citado pela Lusa.

Mario Draghi falava no discurso de abertura do segundo dia do Fórum do BCE, que teve início na segunda-feira e que decorre até quarta-feira em Sintra, no rescaldo do ‘Brexit’ e no mesmo dia em que o Conselho Europeu começa a debater os cenários da saída do Reino Unido da União Europeia.

Para o presidente do BCE, “não é coincidência” que os bancos centrais tenham enfrentado o “desafio comum da baixa inflação”, porque “há fatores globais em jogo”. E questionou: “Qual é a melhor maneira de lidarmos com eles?”.

“Num extremo, os bancos centrais podem considerar as condições globais de forma inteiramente exógena e definir as suas políticas de acordo com isso. Num outro extremo está a coordenação [formal] de políticas monetárias. No meio está um leque de soluções informais”, considerou.

Qualquer que seja a visão perante estas opções, disse, “o que é claro é que a questão da dimensão internacional da política monetária está a tornar-se mais pertinente, uma vez que os fatores comuns que estão a afetar os bancos centrais estão a aumentar”.

O presidente do BCE admitiu que “uma coordenação formal da política monetária é complexa”, desde logo porque os bancos centrais têm mandatos nacionais, e não globais, e respondem aos parlamentos nacionais.

“Isto não significa, no entanto, que não possamos alcançar uma solução global melhor do que a que temos hoje”, sublinhou.

Considerando que diferentes políticas monetárias entre os maiores bancos centrais do mundo “pode criar incerteza”, Mario Draghi disse que “todos podiam beneficiar de uma melhor compreensão entre os bancos centrais sobre os caminhos da política monetária”, o que se resume “à melhoria da comunicação”.

Nesse sentido, o presidente do BCE considerou que fóruns como o G-20 “podem desempenhar um papel importante em trazer o alinhamento apropriado de políticas. É fundamental que os acordos nesses fóruns se traduzam em ações políticas concretas”, considerando ser “desapontante” o compromisso do grupo dos 20 (ministros de finanças e lideres de bancos centrais das principais 20 economias do mundo) de alcançar um crescimento económico de 2,0% nos próximos cinco anos.

Para Draghi, embora esses grupos não possam comprometer os diferentes países, existe um “interesse comum” que passa por mais crescimento no longo prazo, uma inflação mundial mais estável e mais estabilidade financeira mundial.

O final da semana passada ficou marcada pela vitória do "leave" no referendo britânico, com a confirmação do Brexit a ser responsável por uma sexta-feira - e segunda - negras nos mercados. 

Numa reação quase imediata, umas das primeiras oficiais após o resultado do referendo, Mark Carney assegurou que o Banco de Inglaterra “não hesitará em tomar ações adicionais” de modo a que os mercados se ajustem e a economia britânica cresça. E que, caso seja necessário, tem  250 mil milhões de libras (307 mil milhões de euros) prontas a serem usadas. Além de um volume “substancial” de moeda estrangeira. Medidas que pretendem dar uma resposta imediata “a qualquer volatilidade de curto prazo nos mercados”.

Depois do Banco de Inglaterra ter dito que tomará "todas as medidas necessárias" para lidar com os efeitos do resultado, também o Banco Central Europeu assegurou que está a acompanhar de perto o problema. A instituição garantiu estar pronta para imprimir moeda e fornecer liquidez em divisa estrangeira aos países europeus. Ecos de segurança que surgiram também vindos do outro lado o Atlântico da parte da Reserva Federal norte-americana e da Ásia, com os bancos do Japão e da Índia a mostrarem disponibilidade para cederem liquidez ao sistema. 

Sem as presenças de Yellen e Carney em Sintra fica mais esvaziado o último dia de trabalho sessão do Fórum e Draghi deve voltar mais cedo a Bruxelas.