
Há cada vez mais portugueses a emigrar para o Brasil, mas arriscar numa nova vida é um processo cheio de obstáculos: demorado, burocrático e, para a maioria, caro.
São exemplo disso os recém-licenciados que podem ver naquele país uma estrada menos sinuosa do que num Portugal em crise. Mas atenção: é preciso ter, pelo menos, um ano de experiência.
O visto de estudante pode ser uma alternativa. Não exige trabalho no currículo, mas o estagiário é encarado como mão-de-obra barata que aceita horários flexíveis. Ainda assim, pode ser uma forma de entrar no mercado.
E para obter um visto é preciso dinheiro. «Não é para todos. É preciso um contrato de trabalho, uma dificuldade acrescida para os recém-licenciados», disse à AF David Bernardo, organizador da conferência «Empregos no Brasil para Estrangeiros», que aconteceu este domingo na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.
Como obter o visto?
Estudantes, engenheiros, advogados, médicos e, claro, desempregados enchiam a plateia. Em comum, as dúvidas sobre como conseguir um visto de trabalho - o maior obstáculo. Muitas empresas criam barreiras na hora de o garantir, atirando essa responsabilidade para o funcionário. E essa é uma missão quase impossível. Além de burocrático, o processo exige sempre o preenchimento de formulários por parte da empresa.
«Pela minha experiência, é possível tratar do visto sozinho, mas não quero pôr aqui paninhos quentes. A probabilidade de sucesso é muito baixa. É preciso um despachante que faça de ponte entre o trabalhador e a empresa». Há empresas especializadas nesta matéria.
Seja como for, antes de ir, guarde um dinheirinho de parte. Um visto pode ficar à volta de 3.500 reais (cerca de 1.455 euros).
Isto para além da viagem que, ida e volta, custa em média mais de 900 euros. Um gasto que terá de suportar várias vezes: viajar para uma entrevista e, se conseguir o trabalho, voltar a Portugal para obter o visto. A despesa sai a duplicar. Contas feitas, paga 3.255 euros só nestes dois aspetos.
Tenha ainda em atenção que cada vez que mudar de empresa, terá sempre de voltar a tratar do visto, o que obriga, mais uma vez, a regressar à terra natal.
Este gasto pode, em contrapartida, ser compensado pelo salário médio de um profissional qualificado ou um técnico especializado que, de acordo com David Bernardo, ronda os 8 mil reais (cerca de 3.329 euros).
Há ou não oportunidades? «Muitos vão iludidos»
Só em janeiro deste ano, foram criados 118.895 mil empregos no Brasil. O país enfrenta uma taxa de desemprego de (apenas) 5,5%. Uma miragem para quem vive num país nos braços da troika.
«Há oportunidades? Há. Há muita gente iludida? Há. Há pessoas que não sabem fazer o processo de recrutamento. Por exemplo, não sabem falar nas entrevistas. Matam opções», alertou o organizador da conferência, que tem já agendada para terça-feira uma outra no Porto.
Entre prós e contras, será o Brasil o novo «el dorado» para os portugueses? O primeiro passo é pensar se é ou não um bom mercado para si. Mas sempre sem ilusões: «Não é o castelo da Disney».
Prepare-se para encontrar um «mercado altamente competitivo». E, por isso, decida-se: «Ou primeiro muda de carreira e depois muda de país ou então primeiro muda de país e só depois muda de carreira».
Se conseguir o emprego desejado, serão, pelo menos, estas as certezas com que poderá contar: o contrato normal de trabalho contempla 44 horas semanais (mais quatro do que cá), com 13 meses remunerados e não 14, subsídios de alimentação e transporte (dependendo da distância casa-trabalho) e, na sua maioria, também direito a assistência médica. Há ainda o fundo de garantia salarial, que cá não existe.
Por isso, pense bem antes de ir, faça as contas e, primeiro que tudo, estruture o seu caminho profissional para os próximos cinco anos. No fundo, encare a sua carreira como um negócio.