O presidente do BPI afirmou hoje que “imediatamente a seguir” à entrada em vigor, a 01 de julho, do decreto-lei que abre caminho à desblindagem de estatutos na banca irá propor a votação desta proposta aos acionistas.

O problema só vai ser visto quando o decreto-lei entrar em vigor, a 01 de julho, e proporei [ao Conselho de Administração - CA] que seja imediatamente a seguir [levado a votação em assembleia-geral de acionistas]”, afirmou Artur Santos Silva em conferência de imprensa no final da reunião magna do BPI, que decorreu esta manhã no Porto.

Aprovada a desblindagem dos estatutos do BPI, que atualmente limitam os direitos de voto a 20%, independentemente de a posição acionista ser maior, Santos Silva admitiu – embora ressalvando falar “a título pessoal” – que a proposta de cisão das operações do banco em África deverá voltar para cima da mesa.

"Acho que sim, é uma hipótese, com certeza”, disse, referindo-se à proposta apresentada no ano passado pela administração do banco no sentido da criação de uma nova sociedade que juntaria as participações em Angola (50,1% do Banco de Fomento Angola – BFA) e em Moçambique (30% do Banco Comercial e de Investimentos e 100% do BPI Moçambique), mas que acabou por ser chumbada pelos angolanos da Santoro Finance em fevereiro.

Para o presidente do conselho de administração do BPI, esta era a “solução ideal para resolver o problema” da excessiva exposição do banco a Angola, segundo exigido pelo Banco Central Europeu (BCE) pelo facto de este país não ter um sistema de supervisão bancário equivalente ao europeu, e era a solução defendida “pela destacada maioria dos acionistas”, apenas não tendo passado devido à blindagem dos estatutos.

Garantindo estar “extremamente tranquilo em relação ao futuro”, Artur Santos Silva afirmou-se “certo que o problema da blindagem [dos estatutos] vai ter uma existência muito curta com a nova lei” e confiante que “os interesses dos acionistas vão cada vez mais funcionar como é racional que funcionem”.

Relativamente à Oferta Pública de Aquisição (OPA) lançada pelo banco catalão CaixaBank, que atualmente detém 44,10% do capital do BPI, Santos Silva remeteu para mais tarde um comentário do CA, mas considerou “muito importante” que o principal acionista do banco “tenha reafirmado o grande interesse que tem” na instituição.

Isso é um sinal muito positivo desta OPA que o CaixaBank lançou”, sustentou, convicto que “a questão de Angola vai assumir outros contornos se a operação for concluída até ao fim”.

A este propósito, o presidente do CA do BPI disse que o banco vem mantendo “contactos estreitos com o BCE ao mais alto nível”, estando o banco central “totalmente a par de todos os esforços feitos para resolver o problema” da exposição a Angola.

O BCE está a par de tudo o que tem sido feito e confio que tomará decisões adequadas em relação a este problema, porque o banco utilizou todos os meios e instrumentos para o resolver. Se não houvesse a blindagem este problema não existia, porque perto de três quartos dos acionistas tem uma visão coincidente com o que o CA tem proposto e há uma grande coesão ao nível do CA”, sustentou.

Para Santos Silva, a abordagem da União Europeia à questão africana deveria, contudo, ser diferente, porque “países que têm posições importantes em África deviam poder desenvolvê-las e aproveitá-las”.

A Europa é altamente responsável pelo estado de África, tem lá grandes interesses”, afirmou, salientando que “o BFA é um caso extraordinário de sucesso do BPI e Portugal tinha o maior interesse que uma instituição portuguesa continuasse a controlar aquele que é o primeiro banco em depósitos e o mais rentável em Angola”.

Para o presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, Angola é “uma questão isolada que tem muita visibilidade, mas não afeta o funcionamento nem do BPI, nem do BFA ou da comissão executiva”.

O banco não tem problemas. É uma questão que tem a ver em primeiro lugar com a supervisão e que tem implicações acionistas", disse, salientando que o BPI teve em 2015 "a segunda mais elevada da Península Ibérica rentabilidade dos capitais próprios, um dos três mais baixos rácios de capital em risco da Península Ibérica e um dos mais altos graus de cobertura por imparidades".

"A confirmação de que nada disto perturba o funcionamento do banco seja em Portugal, seja em Angola, é que a assembleia-geral aprovou por unanimidade o relatório e contas de 2015", acrescentou.

De acordo com Ulrich, se “o BFA tem sido uma joia para o BPI", tem-no sido "também para Angola, porque funciona de forma impecável: emprega 2.600 pessoas, das quais 2.570 são angolanos formados em Angola que trabalham em perfeito espírito de equipa com alguns expatriados portugueses, tem mais de 1,4 milhões de clientes, funciona com a mais moderna tecnologia e tem clientes muito sofisticados”.