«Fala-se do buraco, do buraco, do buraco... Devo dizer que a minha formação é em matemática. Apresentem-me números». Foi a partir daqui - já passavam cinco horas da sua audição na comissão de inquérito ao Banco Espírito Santo - que Álvaro Sobrinho,  o ex-presidente do BES Angola começou a ser mais explícito no que toca às «responsabilidades» sobre o que se passou no banco por si liderado até 2012 e sobre a derrocada do BES Portugal e do Grupo Espírito Santo. Admitiu ser «culpado», mas apenas por propor os créditos de 5,7 mil milhões de euros ao BESA, parte dos quais para financiar dívida pública do seu país, mas não por decidir concedê-los. Aí, apontou o dedo ao BES, porque, afinal foi o banco de Ricardo Salgado que emprestou:  «Não encostei uma pistola à cabeça de ninguém». E questionou a «moralidade» de quem veio a seguir na liderança - Amílcar Morais Pires e Rui Guerra - se, depois de ele sair, a carteira de crédito cresceu ainda mais 2,3 mil milhões de euros.

Durante a maior parte da audição, disse que não queria entrar em «achincalhamentos pessoais», nem «falar contra quem falou contra si» nas audições precedentes, mas perante a pergunta da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua (BE) sobre a sua alegada vitimização sem «malfeitor», ao contrário de outros intervenientes, Álvaro Sobrinho acabou por ir mais além nos seus comentários:

«Eu não queria falar, mas obrigam-me a dizer uma coisa: se vocês analisarem a carteira de crédito que nós deixamos na minha legislatura, se quiserem, era de cerca de 6,7 mil milhões de dólares. Em junho passado, um ano e meio depois de eu sair, este valor passou para 9,2 mil milhões de dólares. Se fizerem uma média aritmética simples, o crédito cresceu duas vezes mais. Se o banco estava tão mal e o rácio de transformação péssimo, como é que se justifica crescer 2,3 mil milhões de crédito?»


E isto tudo, acrescentou, com outra «componente relevante»: «com os depósitos a decrescerem». O ex-presidente do BESA afirmou que esses valores foram apresentados pelo BNA em junho de 2014. 

Portanto, entende que «se as pessoas vieram para resolver o problema e a governance do banco» e que se «o problema era de crédito», pior ficou. Nunca citou nomes, mas percebeu-se que falava de Rui Guerra e Amílcar Morais Pires, que lhe sucederam. E continuou:

«Também ninguém fez análise de quanto é que o BES Portugal aumentou a sua linha de crédito desde que eu saí do BESA: foi mais de 1 bilião de dólares. O banco expôs no período em que eu saí cerca de 500 milhões de dólares em cartas de créditos. Digam-me os senhores deputados se há alguma moralidade para virem dizer que... Isto é factual, não é porque um jornal disse...»

«Foi para lá uma pessoa boa, mas que duplicou mais o que estava feito. E quanto é que o BES pôs lá e tirou daqui [de Portugal] no espaço de um ano? Fui por acaso eu que disse para se investir 500 milhões num hospital em angola em novembro? E mais 500 milhões em imobiliário? Isto são declarações públicas de Ricardo Salgado»


Nas reticências e nas entrelinhas, acabou por apontar o dedo a quem considera serem os responsáveis. Com isso, quis frisar que não descartava as suas próprias responsabilidades:

«Não estou a dizer isto para me vitimizar. Também tenho de me defender». «Eu sou culpado, sou. Sou e tenho responsabilidades. Se pudesse voltar atrás se calhar podia fazer diferente. Mas fi-lo em consciência. A achar que estava a fazer o melhor. É verdade que tínhamos de reformular [a questão dos depósitos e um maior esforço de rácios de solvabilidade», mas tudo aquilo que foi pavoroso, que se encontrou lá, enfim... É o que tenho a dizer»

 
Repescou o adjetivo utilizado por Ricardo Salgado. O ex-presidente do BES é que disse, na sua audição, que a situação que encontrou no BESA foi «pavorosa» e que não sabia que o endividamento era daquela ordem.  Uma «surpresa» que Sobrinho desmentiu, dizendo que Salgado estava a par de tudo o que era mais importante: «Se houve surpresa, então éramos todos incompetentes», ironizou.

Ora, Sobrinho diz que tinha «o direito» de pedir o empréstimo que quisesse. «Quando digo 'passem-me para cá um bilião, eu sei qual o risco que corro. Quem empresta é que tem de analisar... Foi posta esta questão em cima da mesa. A decisão não foi minha. Propus. Sou responsável por propôr isto. Achei que devia investir naqueles ativos e que era bom para o banco. Mas não fui eu que decidi».

«Eu não fui ao BES, não encostei uma pistola à cabeça de ninguém»

Uma coisa, entende, é a luz verde dada pelo banco de Salgado ao empréstimo feito à estrutura angolana, outra é a forma como o BESA distribuiu esse dinheiro:

«Podem dizer que o BESA atribuiu mal os créditos, mas eu não sou responsável por tirarem dinheiro daqui e meterem em Angola»

Denota-se, aqui, alguma contradição no discurso de Álvaro Sobrinho, uma vez que tinha assegurado, inicialmente, que embora os créditos de 3,6 mil milhões de euros tenham sido autorizados, «o dinheiro nunca saiu de Portugal».



Álvaro Sobrinho sugeriu, ainda, que o BES terá concedido o empréstimo para tirar «proveitos» disso. Referia-se aos juros de 200 milhões de euros que eram pagos por ano ao Banco Espírito Santo,   que classificou de «altíssimos», «nove vezes mais do que uma empresa normal». «Sim, claramente sim» entravam «diretamente na conta dos resultados do banco». «Tinham um impacto bom» para o BES, vincou.

Já quanto à garantia de Angola, que caiu na altura da resolução do Banco de Portugal que dividiu o BES em banco bom - o Novo Banco - e o banco mau, tóxico, Álvaro Sobrinho alinha com Ricardo Salgado na passagem de culpas ao Banco de Portugal. « Não houvesse a crise do BES e do GES não havia esse problema [da garantia]. Houve a decisão de elevar um crédito a total imparidade. De repente o banco diz, 'tem de pagar a casa por inteiro' e eu [BESA] não tenho tesouraria para fazer face a isto». Também o ex-patrão do BES tinha dito que atirar a garantia estatal de Angola, assinada pelo presidente José Eduardo dos Santos, para o banco-lixo, tóxico, era uma «ofensa diplomática». 

Sobrinho entende que era possível recuperar o dinheiro que se perdeu: «A possibilidade de recuperação dos créditos do BESA e com as garantias que tinham, a minha perceção é que era viável. Mas há uma diferença entre a perceção e a realidade. Penso que era viável, pelo menos até 2012». Depois disso, já não estava aos comandos da liderança.

Sobre as alegadas comissões que terá recebido, disse apenas: «Não vou comentar. Isso é uma falsidade». E, quanto à prenda de 14 milhões que o construtor José Guilherme deu a Ricardo Salgado, confirmou-a e disse que foi ele próprio, enquanto ex-presidente do BESA, que autorizou a operação. Um procedimento comum quando estão envolvidas grandes transferências de dinheiro.