A porta-voz do Bloco de Esquerda acusou o primeiro-ministro de ter vendido o BPN ao BIC como um «favor», por «uns tostões», mas agora não interceder junto do governo angolano sobre a garantia que deu pelos empréstimos do BES ao BESA no valor de mais de 3 mil milhões de euros.

«Quando estão em causa os interesses dos novos donos disto tudo, o primeiro-ministro abandona logo o mexilhão e o mexilhão português bem pode vir a pagar o calote da elite angola e o senhor primeiro-ministro parece viver muito bem com isto», acusou Catarina Martins.


A bloquista tentou trazer para o debate quinzenal a discussão que está a decorrer na comissão de inquérito ao BES/GES, colocando a ênfase nos empréstimos «mais do que duvidosos a altas entidades angolanas» por parte deste banco e na garantia dada por José Eduardo dos Santos, que depois foi «rasgada» e deixou o Novo Banco com os «danos colaterais».

«Bem sabemos que quem afundou o BES foi a família Espírito Santo, mas estes milhões deram um empurrãozinho», constatou, apelando a Passos Coelho para que interviesse.

O primeiro-ministro «chutou» a «competência» desta matéria para o Banco de Portugal.

«Tenho a certeza que, na comissão de inquérito, terá oportunidade de questionar o Banco de Portugal e os anteriores administradores do BES e do BESA sobre estes movimentos. O BES era um banco privado e as garantias oferecidas seja por quem for respeitam às instituições e, neste caso, sendo instituições financeiras, dizem respeito ao BdP».


Catarina Martins lembrou então que o Governo se envolveu nas negociações do BPN ao BIC, salientando que «o buraco do BES é bem maior» e terá repercussão nos contribuintes portugueses. «Na altura o Governo devia interceder junto das autoridades angolanas e agora não tem nada a ver com isto?», questionou.

A «diferença», respondeu Passos, é que o BPN «era um banco público» com uma data-limite inscrita no memorando para ser vendido ou liquidado. «Felizmente conseguimos uma proposta viável», disse, garantindo que os custos do BES será suportados pelo fundo de resolução e pelos bancos.

A porta-voz do BE contrapôs que «há dinheiro público no BES» e voltou à carga, acusando o Governo de intervir no BPN «quando estava causa uma venda de favor a capital angolano», mas «não tem uma palavra para defender o país» na hora de «exigir ao regime angolano que assumisse responsabilidades».

O primeiro-ministro pediu então a palavra «para defender a honra», porque considera que «há limites no debate democrático» e sentiu que as palavras de Catarina Martins eram «insultuosas e não podiam passar sem reparo».

«Não pode insistir que o Governo fez uma venda a favor a capitais angolanos, não é verdade, foi uma venda clara e com transparência. Podem auditá-la como quiserem. Eu não faço favores a ninguém nem peço favores a ninguém. Se tem provas, apresente-as», afirmou, visivelmente exaltado e com muito apoio das bancadas da maioria.


Catarina Martins acusou então a maioria PSD-CDS de ter feito um «relatório que é uma anedota e não diz a verdade sobre a venda do BPN ao BIC».

«Se não sabe o que é um favor, eu explico-lhe. Este Governo vendeu o BPN, ficando com todo o crédito malparado. Vendeu ao BIC por 40 milhões, por uns tostões, em linguagem de bancos. O BIC é provavelmente o único credito sem malparado do mundo, porque são os portugueses que o estão a pagar. E ainda deixou que o BIC despedisse trabalhadores do BPN com os custos a serem pagos pelo Estado português. A venda foi num valor abaixo de todas as avaliações feitas na altura. Por isso, sim, faz favores, e muitos. Está a vender o país ao capital estrangeiro», concluiu. 


Durante o debate quinzenal, Passos Coelho fez um balanço de 2014, constatando que o país tem agora um «crescimento sustentável», sem o regresso de «velhas políticas».
 
O programa de estágios do Governo foi bastante criticado pela oposição, mas o primeiro-ministro garantiu que 70% destes acabam por traduzir-se em emprego.
 
A privatização da TAP foi outro dos assuntos em destaque, com Passos Coelho a defender que é a única forma de evitar um despedimento coletivo e de garantir viabilidade a longo prazo e a oposição a acusar o Governo de «entregar» um setor estratégico «de mão beijada».