Era a audição mais aguardada e a intervenção de Ricardo Salgado, que durou mais de uma hora, fez jus à sua importância. O banqueiro que liderou o BES durante mais de duas décadas assumiu responsabilidades pela crise no BES e o GES não sozinho, mas sempre falando no plural. E separa as águas da crise e do colapso. As culpas do desaparecimento do banco são atribuídas ao Banco de Portugal, auditores e Governo. Ninguém fica fora do alvo. Ricardo Salgado alega que tinha um plano para recuperar a instituição financeira e o grupo. 

O banqueiro, ex-«dono disto tudo», nega todas as «falsidades» mediatizadas sobre si e a sua família e o alegado dinheiro desviado para o estrangeiro e a para offshores - «ninguém se apropriou de um tostão» - ou a existência de qualquer «plano secreto». Para os investidores que perderam tudo, foram poucas as palavras, já no final do discurso. Lamenta o que lhes aconteceu. Mas coloca o ónus da responsabilidade no Banco de Portugal, que fez exigências «impossíveis» de realizar. A ajuda do Estado não se colocou, porque o BES não precisava. Sobre o GES, tentou um «apoio transitório» e, disso, fala com ressentimento, tendo em conta que o GES ajudou a «salvar» tantas empresas: o Governo não quis saber.  Salgado começou pela premissa de «defender dignidade e honra da [sua] família», citando um provérbio chinês 
«O leopardo quando morre deixa a sua pele e um homem quando morre deixa a sua reputação».  «É também por isso que estou aqui convosco profunda reflexão de seis meses da situação em que me encontro»

Fez uma retrospetiva dos 22 anos à frente do banco como presidente executivo do BES e da história do GES, alegando que houve sempre «unidade» e «consenso solidário», o que não impediu que «durante semanas a fio, a minha família e eu próprio fomos julgados em praça pública».

O banqueiro deu o exemplo, entre outros, das notícias que dão conta das ««mansões em Miami e castelos da Escócia», ironizou, para assegurar que essas «histórias» são «totalmente falsas» e que «acabaram por ocultar os factos». Admitiu, no entanto: «Poderei ter tomado decisões que não foram as mais adequados. mas quero acreditar que qualquer juízo» não é mais revelador «do que histórico nacional e internacionalmente reconhecido» do BES.

Banco de Portugal e Governo: os dois grandes alvos de Salgado

A crise em Portugal foi «aprofundada pelo massacre das agências de rating em 2011» e o BES também levou por tabela, mas queria criar  «não um banco mau» e, sim, um veículo de transferência de ativos para dar a volta ao problema. 
«O governo e a troika não aceitaram senão garantia para o Estado de fundos de pensões». «Era enorme a pressão sobre os bancos. Tudo foi explicado,sem acolhimento. Foi uma oportunidade perdida, senhores deputados»

Depois de referir os 10 aumentos de capital desde 1992 que o banco realizou, disse que essas operações explicam «a escolha de não recorrer à recapitalização com ajuda do Estado» por meio da troika.

«Não por temer que ajuda do estado revelasse segredos, manobras». E mais: o Banco de Portugal podia solicitar informação «sempre que entendesse». «A escolha de não recorrer não era fruto de fuga, temor ou de um plano secreto»


Quanto à Espírito Santo Financial Group (ESFG), Salgado lembrou o que se diz na praça pública, que o GES «sempre serviu os interesses de uma família voraz, mas a verdade porém é outra», assegurou. Citou «os inúmeros dados comprovativos da solidez financeira do Grupo ao longo de dezenas de anos». «Ao longo destes 30 anos o grupo alargou a sua área financeira e não financeira, cá e lá fora».

Sobe a «destruição da marca e do património BES», criticou as «versões menos corretas, quer por falsidades, quer por omissões» relativas ao que se passou.
«A partir de 2007 e 2008 reconheço, como já o fiz publicamente, problemas de gestão». Procedeu-se à criação de «novas estruturas e modelos de governação, em 2009 na ressaca da crise mundial foi criada a Rio Forte pensada para ser a holding única da área não financeira». «Em novembro de 2013, foi reportada a ocultação de passivo da Espírito Santo Internacional». «Todos nós encarámos dificuldades da sua superação e de forma consciente e realista procurámos soluções adequadas»

Salgado diz que, na solução de curto e médio prazo proposta ao Banco de Portugal, numa reunião, saiu com «sensação» diferente da que se materializou pelo BdP. «Passado duas horas, BdP impunha o reembolso de todo o papel comercial em escassas semanas». A 5 de dezembro de 2013 foi enviado ao BdP um documento de trabalho preliminar, «no qual mencionámos a inexiquibilidade» das exigências do BdP relativamente ao reembolso de papel comercial. «O prazo concedido era de 18 dias úteis», frisa Salgado, argumentando que a operação era tecnicamente impossível de realizar. Se a fizesse, «parecem prováveis, senão inevitáveis, entre outras, a seguinte consequência: imediata contaminação sistémica não só em Portugal». Foi esta a resposta que deu ao Banco de Portugal e que citou na comissão de inquérito. Enumerou, depois, as medidas do plano do GES apresentado ao vice-governador do Banco de Portugal em dezembro de 2013.
«Foi iniciado, mas não chegou a ser concluído» «Seria o GES viável? Ou essa recuperação seria só salvar uma família è custa de outros? A resposta está no exame da PwC para o Banco de Portugal, onde se concluir que o GES era economicamente viável» «A mesma auditoria conclui que a Rio Forte não tinha qualquer imparidade. Para a auditora escolhida pelo BdP era viável e valia a pena ser recuperado»

Banco de Portugal atuou «de forma vaga e imprecisa»

Foi possível reduzir a exposição ao GES, «conforme foi aqui reconhecido pelo senhor governador do Banco de Portugal». Mas, ao mesmo tempo, «os ativos do banco refletiam cada passo, cada divergência», lamentou. E lamentou também, em tom de crítica, a atuação da supervisão liderada por Carlos Costa.

O Banco de Portugal atuou «de forma vaga e imprecisa», num processo «que o vice-governador disse ser persuasão moral», nesta comissão de inquérito, mas «de que tive conhecimento mais pela imprensa, do que por indicação diretamente transmitida pelo Banco de Portugal». «Quero deixar bem claro que era minha intenção apresentar plano de governance, sobre a minha sucessão».


O banqueiro assegura que o Banco de Portugal quis que fosse ele próprio a tratar do assunto. Revela mais:  «Em conversas tidas com senhor governador, foi manifestada que sucessão ocorresse ainda antes do aumento de capital, o que eu considerei imprudente e mesmo de risco elevado».

A carta de 31 de março, que Passos Coelho leu e devolveu

Ricardo Salgado cita a carta de 31 de março, reveladora sobre a alegada entrada em cena tanto do primeiro-ministro como da ministra das Finanças em todo este processo. «Enderecei uma carta ao senhor governador do Banco de Portugal apontando pela terceira vez o risco sistémico que adviria» de reorganização «desordenada». «Nessa carta reafirmei textualmente o seguinte: estou inteiramente disponível (no quadro de relacionamento com BdP) para uma solução construtiva de governance (...) não serei eu que por qualquer motivo pessoal dificultará essa solução». Garantiu-o, acrescentando que o primeiro-ministro, Pedro Passos coelho, recebeu essa mesma carta, e que «a devolveu». Também a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, teve conhecimento da mesma. 

Salgado confirma a solicitação de apoio provisório ao Estado. Sem ele, o GES foi obrigado a recorrer à Tranquilidade «de forma temporária». Era muito importante naquela fase ter um apoio intermédio, argumenta o ex-líder do BES. Num tom de ressentimento em relação ao Governo, por ter rejeitado «qualquer abertura de apoio estatal ao GES», lembrou que o grupo «apoiou a salvação de várias empresas portuguesas».

«Será quem o senhor presidente entender»

Sem nunca se referir à administração que se lhe seguiu, apenas culpando a medida de resolução e, por essa via, o Banco de Portugal pela «destruição» do BES, Ricardo Salgado revelou que o governador do BdP, Carlos Costa, aceitou a primeira indicação de Morais Pires, para o substituir na liderança. «Será quem o senhor presidente entender», terá dito o governador do Banco de Portugal, por telefone.

Mesmo em relação ao BESA, parecia estar tudo bem. Por isso é que o banqueiro quis as palavras do Banco de Portugal, que não esperava «um impacto significativo» da exposição à filial de Angola, dado que existia a garantia do Estado angolano. E, depois, o Banco de Portugal acabou por atirar essa garantia para o banco mau, «o que significa que era tida como ativo tóxico», o que, para Salgado, «é curioso».

Por outro lado, assegurou que «ninguém da administração do BES, do GES ou da família Espírito Santo obteve qualquer alegado benefício, ao contrário do que foi insinuado por alguns órgãos da comunicação social». 
«O que é apresentado como prejuízo recorde não corresponde a dinheiro saído do Banco Espírito Santo, e a milhões saídos para o estrangeiro e offshores». ​Corresponde «a provisões impostas pelo BdP», muito criticadas pelos administradores do BES. Na «ata incontornável» de 30 de julho um dos administradores quis que ficasse escrito que era provisão era «injustificada»

BES comparado ao resgate da troika

Ricardo Salgado usou uma analogia para classificar o problema do GES. «Tal como o do país resulta do sobreendividamento». «Foram dados ao grupo 7 meses para reembolsar a dívida, enquanto Portugal dispõe de 31 ans para reembolsar a troika». 

E isto depois do «grande esforço que 1.306 milhões de euros em apenas seis meses reembolsar papel comercial», reconhecido pelo governador do BdP, argumentou. «Seria equivocado comparar o BES ao nosso país», mas este é «apenas um  critério para avaliar caráter extremo quer em tempo quer em substância das medidas impostas ao BES e GES». 

«Não era o responsável todo poderoso»

Apesar «de mais de um ano de apresentação pública de responsável, e responsável todo poderoso do BES e GES», no final da sua intervenção inicial recusou o que viria a repetir já na parte das perguntas e respostas: que não é o responsável por todo o grupo, apenas pela área financeira. Defendeu-se, dizendo que atuou sempre em consciência e sempre com idoneidade. 

«Tendo certamente acertado e falhado muito na minha vida, sempre em consciência me considero idóneo» para desempenhar funções. «Cabia a outros, na supervisão, julgar a minha idoneidade». «Ninguém nunca a questionou. até a própria aceitação de presidente do conselho estratégico, até ao momento da saída de funções»

 
Voltou a frisar que «num clima dramático», o banco que liderava conseguiu realizar um aumento de capital, «para muitos impossível». Por isso, nunca previu o o colapso.
«Sei que muitos perderam tudo com desaparecimento do BES e insolvência do GES. Sei que o mais fácil em crise é encontrar responsáveis e que a história é sempre tardia em reparar erros; procurei explicar o que o banco e o grupo tentaram fazer para evitar o desenlace fatal»

O discurso terminou como começou, com simbologia associada e com a defesa da honra de toda a família Espírito Santo:  «Um nome que pode ser apagado de uma fachada de um banco, mas não pode ser apagado da história de uma família com 145 anos ao serviço de Portugal».

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA INTERVENÇÃO DE SALGADO, AO MINUTO