Amílcar Morais Pires, ex-administrador financeiro chegou antes da hora à sua audição na comissão de inquérito ao Banco Espírito Santo (BES) e ao Grupo Espírito Santo (GES) e, quando iniciou a sua intervenção, começou logo por recordar quais as suas responsabilidades no banco e enfatizou que era Ricardo Salgado (CEO) o responsável por vários departamentos ou pelouros que «normalmente» cabem ao CFO, ou seja, ao administrador financeiro e não ao CEO. 

«Havia departamentos importantes no BES que não pertenciam ao meu pelouro. O departamento de planeamento e contabilidade estava a cargo do Dr. Ricardo Salgado. Normalmente, [noutros bancos] é o CFO, mas neste caso era Ricardo Salgado».


O na altura presidente do BES também era o responsável por outro departamento, das relações com investidores: «Era o Dr. Ricardo Salgado», voltou a frisar. Ele, que sempre foi tido com um braço direito de Ricardo Salgado, um homem da sua inteira confiança. O ex-presidente do BES fez, até, questão de indicar Morais Pires para lhe suceder na liderança. Não veio a acontecer. o Banco de Portugal não aceitou. 

O ex-administrador financeiro do BES lembrou depois aos deputados que foi eleito para o conselho de administração em março de 2004 e saiu em 23 de julho de 2014. A seu cargo estavam, por exemplo, os pelouros do Luxemburgo e do BESA.

BESA: problemas começaram em 2012 e a direção de Sobrinho «reportava a Salgado»

Revelou que  acompanhou a situação do BESA desde maio de 2012. Já nessa altura, deteve-se com «vários desafios», nomeadamente de «governance», da direção de Álvaro Sobrinho, que «reportava a Ricardo Salgado».

De notar algumas semelhanças no discurso de Morais Pires com o do ex-acionista da ES Control e Presidente da Semapa, Pedro Queiroz Pereira, que na sua audição, ontem mesmo, quarta-feira, disse que «nada se fazia sem Salgado» no Grupo Espírito Santo.

Morais Pires diz que houve «muita relutância» de Angola na sua nomeação e que já nessa altura, o BESA «apresentava um rácio de depósitos de 170%, sendo extremamente dependente do financiamento interbancário». Esse financiamento «era obtido numa parte no mercado local, outra junto do BES Portugal».

Morais Pires destacou a «fraca base depósitos local» e o «rápido crescimento da carteira de crédito» como principais problemas do BESA. E garantiu que «nenhum alerta» chegou até si, nem pelo departamento responsável do BES, nem pela KPMG. Segundo o ex-CFO do banco, foram desenvolvidas várias medidas para melhorar a situação do banco em Angola.