José Manuel Macedo Pereira, revisor oficial de contas (ROC) e auditor do Grupo Espírito Santo, foi convidado, «há três ou quatro anos, para fazer parte da comissão de auditoria do BES, mas não aceitou. Nem o «salário substancial desejado por muita gente» o levou a integrar a equipa. Foi ele próprio que revelou esse convite, na comissão de inquérito ao BES, na primeira audição de 2015.

«Não fui daquele que entro mudo e saio calado» e, por isso mesmo e aceitar era «uma belíssima forma de», em pouco tempo «cortar» relações com Ricardo Salgado, «um homem a quem devo favores e que foi meu colega de curso»


Daí que, respondeu ao deputado Pedro Saraiva (PSD), preferiu «preservar» a amizade que tinha com o ex-presidente do BES. «Tendo oportunidade de estar ao pé dele profissionalmente, não estaria». Não quis.

Macedo Pereira denunciou as «situações confrangedoras» de quem viu a «lamber as botas ao Dr. Ricardo Salgado, que era um homem de poder». Aos deputados, o ROC e auditor do GES garantiu que não quis assumir essa postura, preferindo ficar fora da comissão de auditoria. «Quis sempre preservar a relação de amizade com o Dr. Ricardo Salgado», reforçou.

Bem disposto, na interpelação feita por José Magalhães (PS), Macedo Pereira contou as abordagens que ouviu sobre o facto de poder ter um melhor «título» no banco.

«Afinal é amigo e não lhe dá um posto? Isto é um país em que continua o barão e o conde».


Mas, frisou, preferiu manter-se na «profissão liberal».

ESI: erro de 1.300 milhões «não é normal»

Já noutro plano, questionado sobre o passivo da Espírito Santo Internacional, que esteve na origem do descalabro do GES, que levou o BES por arrasto, Macedo Pereira disse que «não conhecia» o contabilista Francisco Machado da Cruz que está no olho do furacão - e que será ouvido esta quinta-feira, dia 8 de janeiro. E que «não tinha acesso às contas da ESI». O que conclui, agora, é que «a ESI teve um passivo de tal maneira subestimado», que «não é normal». «Não é normal, não é normal, não é normal» um erro de 1.300 milhões, salientou, por diversas vezes.

De qualquer modo, «quando o revisor de contas e o auditor chega perante um facto irregular, essa ação já foi efetuada. Está perante um facto consumado». «No caso do BES, eu não tinha conhecimento de como o banco estava organizado internamente, mas quando as coisas têm de correr mal, a posteriori são verificadas. Aconteceram... As pessoas enveredarem por esta ou por aquela operação que não seja correta», só «depois é que o ROC toma conhecimento», indicou.

«Quando alguém quer enganar alguém, engana»


Macedo Pereira recordou, assim, as palavras do ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, também nesta comissão de inquérito, para corroborar que as fragilidades da eficácia da supervisão, em Portugal.