«A RioForte estava infelizmente condenada desde o início». É o que consegue concluir, agora, o próprio presidente executivo da holding não financeira do Grupo Espírito Santo, João Rodrigues Pena, que afirmou na comissão de inquérito ao BES/GES que abraçou o projeto por considerá-lo «interessante e viável». A ideia era «aumentar profissionalização» dessa área de atividades não ligadas à banca e «construir carteira de negócios sustentavelmente rentável». Mas a «pressão» do acionista Espírito Santo Internacional - a ESI -, que provocou o descalabro no grupo e, por arrasto, no BES, colocou um travão ao objetivo inicial. Rodrigues Pena chegou a ponderar demitir-se.

«Estou hoje convicto - com a informação de que disponho -, que o colapso do grupo deriva de práticas de gestão deficientes e de uma situação financeira grave que se prolongava há anos». «A RioForte estava infelizmente condenada desde o início, ou pelo arrastamento da falência da sua acionista ESI ou pelo propósito inicial que afinal não existia»

João Rodrigues Pena manifestou «orgulho no trabalho desenvolvido» pela sua administração e diz que tentou, nos últimos meses, «uma solução que protegesse os credores» e relacionados.

O programa de reestruturação da RioForte continha «riscos importantes», mas «a gravidade da situação justificou (...) que esses riscos fossem assumidos». Isso foi comunicado ao Banco de Portugal, em janeiro de 2014, sendo que a venda da ESFG à RioForte por parte da ESI «não recebeu qualquer reparo por parte do BdP», segundo João Rodrigues Pena. Apesar das reservas quanto a este plano por parte da administração da RioForte, os acionistas já tinham dado aval para operação avançar, explicou.

Depois, houve o investimento de 900 milhões de euros da PT na RioForte, sendo que Rodrigues Pena afirmou não ter tido «qualquer interação» nessa operação, que, adiantou foi realizada pela direção financeira do BES, sob a tutela de Amílcar Morais Pires.

Essas operações fizeram com que «cada membro do conselho de administração» tenha repensado «a continuidade das suas funções».

«Pessoalmente, cheguei a transmitir essa intenção [de demissão]». «No entanto, decidi manter-me em funções», por três motivos: « consciência que a minha saída teria na gestão operacional da RioForte, com 200 postos de trabalho em Portugal, mas sobretudo na América Latina; a responsabilidade para com as participadas; e convicção de que problemas de dívida da ESI estivesse resolvida com aquisição da ESFG pela RioForte»

A passagem da ESFG para a RioForte foi, admitiu, financiada com emissão de dívida vendida nos balcões do BES.

«Forte pressão» da ESI, acionista a 100% da RioForte, complicou tudo

De fevereiro a junho de 2014, tentou-se reforçar a alienação de ativos e concretizar o aumento de capital da empresa. Não se chegou a verificar. Nesse período, sobretudo a partir de abril, a RioForte foi «fortemente pressionada» para comprar mais dívida à ESI, que era a «acionista única» da RioForte. Ou seja, ditava as regras.

João Rodrigues Pena alega que a RioForte impôs condições, como o aumento de capital, mas a ESI «não cumpriu».

Entre abril e julho, «o aumento da dívida acontece perante uma série de condicionalismos e perante o desconforto da administração da RioForte», que colocou «uma série de condições ao acionista para assumir essa dívida»

Aqui, Rodrigues Pena respondia a Ana Paula Vitorino. A deputada do PS só conseguiu concluir que «uma empresa falida aceitou emprestar dinheiro a outra empresa falida». O inquirido retorquiu: «A RioForte não estava falida naquele momento (...) A ESI estava efetivamente numa situação muito difícil». O financiamento, argumentou, foi feito «com base em condicionalismos que estão presentes nas atas e com base na expectativa de aumento de capital». 

A certa altura, quis frisar que o problema de dívida na ESI é um «efeito». A «causa» dos problemas no grupo foram, isso sim, decorrentes do «modelo de governação», assinalou. Explicou porquê: «A lógica de registo de determinado tipo de ativos, de valores; ou sem comprovativo adequado; há uma série de elementos dentro do trabalho desenvolvido pela KPMG que constituem uma prova factual» dessas deficiências, apontou, a pedido do deputado do PCP Bruno Dias.

Houve decisões que lhe escaparam: «Decisões ao nível do grupo e do acionista, que afetaram a RioForte, sem dúvida que sim». Rodrigues Pena gostava de ter tido um «maior nível de informação» na altura apropriada, e não a posteriori.

«Senti que houve momentos em que a velocidade de tomada de decisão e de reação face aos acontecimentos, não permitiu que todos os procedimentos fossem feitos numa governação absolutamente clara e transparente». «Refiro-me, em particular, aos momentos de maior tensão, sobre decisões muito importantes, que se viveram perante as descobertas do último trimestre de 2013», isto é, a ocultação do passivo da ESI


«Enganado? Sinto-me muito frustrado, isso sim»

À pergunta da deputada socialista Ana Paula Vitorino, sobre se sente que foi enganado e porque é que decidiu ficar aos comandos da RioForte, o CEO não quis entrar em julgamentos precipitados:  «Se me sinto enganado? Sinto-me muito frustrado, isso sim», começou por dizer.

«
Aquilo que acreditava que eram as condições que iria ter para desenvolver um projeto, não eram as condições que existiam. A palavra 'enganado' pode depreender que alguém enganou alguém. Essa é uma conclusão que espero vir a tirar», sustentou, de seguida.

Já na reta final da audição, lamentou, de forma implícita, ter sido enganado: «Se tinha toda a informação verdadeira e necessária para conduzir as minhas funções, hoje sei que não». «A dimensão das debilidades de governo [no seio da ESI e do grupo] é uma questão que me surpreende».