Isabel Almeida, a ex-diretora financeira do Banco Espírito Santo, comentou esta terça-feira, na comissão de inquérito ao BES/GES, as audições do ex-administrador financeiro Morais Pires e do ex-presidente, Ricardo Salgado. Com o primeiro, não ficou «chocada» com a imputação de responsabilidades que lhe fez, mas recusa-as. Com o segundo, ficou surpreendida com tantos elogios.

«Não recebi com choque aquilo que ele [Morais Pires] disse sobre eu reportar a qualquer pessoa (...), porque em julho eu falei com ele e, nessa altura, ele renegou os 18 anos de trabalho que tivemos em conjunto»

Ex-administrador financeiro do BES, Amílcar Morais Pires

A ex-responsável do BES assegurou aos deputados que «todas as pessoas» no departamento financeiro, de mercados e estudos sabiam que era ele a única pessoa a quem a ex-diretora reportava. Afirmando-se como «subordinada», reagiu dessa maneira às afirmações de Morais Pires, no Parlamento, quando disse que Isabel Almeida, como «diretora-geral do banco», «tinha plena autonomia para dirigir o departamento» e que ele «viajava muito». Ora, sobre este último ponto, Isabel Almeida tem mais a dizer:

«Morais Pires é uma pessoa da sala de mercados, estava connosco praticamente todos os dias. Podia viajar, mas também há telefones. O nível de proximidade, confiança, respeito mútuo e até de apreciação pela competência profissional fazia com que discutisse com ele todas as matérias importantes, quer ele estivesse no banco ou fora do país, que não acontecia assim tantas vezes»

O «julgamento» que a ex-responsável do BES faz é, frisa, «sobre a atitude dele» perante o seu departamento e a sua própria pessoa. Profissionalmente, descreveu-o como «muito presente e interessado» e com uma «grande competência profissional».« Tinha uma enorme confiança nele».

Já quanto a Ricardo Salgado, ficou surpreendida com as palavras que lhe dirigiu no Parlamento. Imprimiu um ligeiro tom de desconfiança sobre as mesmas: «Foi muito elogioso. Não sei qual é o objetivo. Quero acreditar que é genuíno», disse aos deputados.
Ex-presidente do BES, Ricardo Salgado [Lusa]

A 9 de dezembro de 2014, no Parlamento, o ex-presidente do BES disse que a ex-diretora financeira esteve «à altura das circunstâncias», bem como Morais Pires e Joaquim Goes que acompanharam a operação do aumento de capital, realizado em junho. E que foi graças a eles que a operação foi um sucesso.

Hoje, na mesma sala 6 da Assembleia da República, a diretora financeira quis «confessar» que «nunca» ouviu «tantos elogios públicos» de Ricardo Salgado «como naquele dia, pela televisão». Mas recusou qualquer relação próxima com o ex-líder do BES. Embora fosse ele a decidir, Isabel Almeida não deixava de exprimir os seus pontos de vista:

«Nunca disse sim a todas as instruções de Ricardo Salgado. Senti também que ele ouvia a minha opinião e que podia contrapor os argumentos, mas nunca segui cegamente as suas instruções, embora as decisões finais fossem dele»


Dos avisos ao colapso

Isabel Almeida atribuiu à falta de confiança na validade da garantia soberana de Angola a responsabilidade pelo colapso do BES. «A convicção de todos era que a garantia estava firme. Tinha um prazo de 18 meses mas dizia lá que o estado angolano encontraria um mecanismo substituto se tal fosse necessário. No entanto, o anúncio de resultados de julho ainda diz que a garantia era válida, mas diz que o BNA informou o BESA da necessidade de fazer um significativo aumento de capital. É isto que cria a dúvida nos mercados sobre a validade da garantia», explicou.

Os rácios de capital do BESA eram significativos no final do ano. O que aconteceu, então? É isto que tira o fundo ao mercado e faz com que haja o colapso do banco

Houve, de resto, uma reunião ainda no final de fevereiro de 2014, a cinco meses do colapso, quando a troika um «recado muito forte» ao BES, de que precisava mesmo de aumentar o capital, porque o resto das medidas que estariam a ser postas em prática [o chamado ring fencing exigido pelo Banco de Portugal para acabar com a exposição da área financeira à área não financeira] não chegavam.

Na sua audição, a ex-diretora financeira do BES fez várias outras revelações: que Salgado e Morais Pires decidiram o investimento de 900 milhões de euros da PT na RioForte; e que  ambos recusaram explicar o esquema das obrigações à nova administração, na altura de Vítor Bento. 

Foi de forma bastante explícita que Isabel Almeida se demarcou do homem a quem reportava tudo, Morais Pires, com quem tinha apenas uma «relação profissional». Confessou, inclusive, ter sido   «surpreendida» com o facto de integrar a lista do ex-administrador financeiro do BES para integrar a nova administração que viria a suceder a Ricardo Salgado - e que o Banco de Portugal não aprovou. 

Logo na sua intervenção inicial, a ex-diretora do BES confessou que, tal como outros investidores que ficaram sem nada do que investiram no BES, também ela sentiu isso na pele:   «Perdi tudo», lastimou.

O segredo de justiça

Contida em alguns assuntos sobre segredo de justiça, no âmbito de processos em que está constituída arguida (sobre a Eurofin e a emissão de obrigações), Isabel Almeida acabou por responder a quase tudo o que os deputados perguntaram. 

Já na reta final da audição, o PS sugeriu ouvi-la à porta fechada, o que foi declinado quer pelo presidente da comissão de inquérito, quer pela própria. Fernando Negrão não gostou, porque logo no início da audição manifestou as condições da audição.

«Parece que descobriu a pólvora agora no fim. Isabel Almeida tem o direito de qualquer arguido a não falar e pretende exercê-lo»

Já Isabel Almeida remeteu-se, depois, a repetir o que já tinha dito, para concluir a audição: «Tenho prestado declarações noutras entidades e continuarei a prestar. Foi-me explicado no BdP que, para se apurar a verdade, é necessário alguma contenção. O que me pedem é que as declarações sejam usadas para a descoberta da verdade».