«A garantia era de 4.800 milhões de euros. Reparem que a garantia de Angola é da dimensão da medida de resolução». A chamada de atenção é da ex-diretora do departamento financeiro, de mercados e estudos do BES. Segundo Isabel Almeida, dividir o Banco Espírito Santo em dois – Novo Banco e banco tóxico – foi a única solução possível depois do colapso do Grupo Espírito Santo - precipitado pela ocultação de contas da Espírito Santo Internacional, e que arrastou o BES para o abismo.  

«Se havia informação de que a garantia ia ser revogada, então não havia forma de haver outra solução, mesmo privada, para o BES»

Questionada esta terça-feira, na comissão de inquérito ao BES, Isabel Almeida não explicou de onde, ou de quem vinha essa informação, mas deu a decisão de retirada da garantia como certa.

Certo é que atribuiu à falta de confiança na validade da garantia soberana de Angola a responsabilidade pelo colapso do BES. «A convicção de todos era que a garantia estava firme. Tinha um prazo de 18 meses mas dizia lá que o estado angolano encontraria um mecanismo substituto se tal fosse necessário. No entanto, o anúncio de resultados de julho ainda diz que a garantia era válida, mas diz que o BNA informou o BESA da necessidade de fazer um significativo aumento de capital. É isto que cria a dúvida nos mercados sobre a validade da garantia», explicou.

Os rácios de capital do BESA eram significativos no final do ano. O que aconteceu, então? É isto que tira o fundo ao mercado e faz com que haja o colapso do banco


Sobre a exposição do BES ao BESA, de cerca de 3,3 mil milhões, destacou que esta começou em 2008, «no apoio dado ao BESA para aquisição de dívida pública angolana», num total de 1,5 mil milhões.

A ex-diretora do BES adiantou aos deputados que o grande aumento de exposição ocorreu entre 2009 e 2012. «A exposição duplica para fazer face às necessidades e ao modelo de financiamento do BESA e aos desequilíbrios do ponto vista de liquidez», explicou, considerando que o modelo estratégico do BESA se «esgotou» nesse período.

«Já em 2010 o BES começa a pressionar para as alterações estratégicas. Houve já nessa altura muita discussão para se encontrar outro rumo estratégico que permitisse um maior equilíbrio. Isso não aconteceu e houve uma alteração de equipa do BESA», continuou.

Na vigência desta nova equipa, que entra em 2013, houve ainda um aumento de exposição que «resultou da capitalização de juros».

Nesse momento, invocou o ex-presidente do BESA, Álvaro Sobrinho, que na sua audição garantiu que o banco por si liderado pagava juros «altíssimos» ao BES e que o dinheiro emprestado nunca saiu de Portugal. Isabel Almeida contrariou o seu discurso:

«Desde 2012 que o BESA já não pagava os juros, ao contrário do que foi dito aqui»

Para Isabel Almeida, «as taxas de juro eram perfeitamente normais». «De 2012 até 2014, foi o acumular de juros que fez com que a exposição aumentasse. Só em juros foram mais de 400 milhões», concluiu.

Na sua audição, a ex-responsável do BES fez várias revelações: que  Salgado e Pires decidiram o investimento de 900 milhões de euros da PT na RioForte; e que ambos recusaram explicar o esquema das obrigações à nova administração, na altura de Vítor Bento. 

Foi de forma explícita que  Isabel Almeida se demarcou do homem a quem reportava tudo, Morais Pires, com quem tinha apenas uma «relação profissional». Confessou, inclusive, ter sido  «surpreendida» com o facto de integrar a lista do ex-administrador financeiro do BES para integrar a nova administração que viria a suceder a Ricardo Salgado - e que o Banco de Portugal não aprovou. 

Na sua intervenção inicial, Isabel Almeida descreveu-se como uma mera «subordinada». E, tal como outros investidores que ficaram sem nada do que investiram no BES, também ela sentiu isso na pele:  «Perdi tudo», lastimou.