O ex- administrador do Banco Espírito Santo, Amílcar Morais Pires, frisou, esta quinta-feira, na sua audição na comissão de inquérito ao BES, que o departamento de risco do Grupo Espírito Santo estava a cargo de José Maria Ricciardi, o primo de Ricardo Salgado, e de Joaquim Goes, nos dois últimos anos. Ricciardi descartou na terça-feira, 9 de dezembro, qualquer responsabilidade no descalabro do grupo, tendo mesmo dito que foi «o único» a querer mudar o rumo até ao precipício. Mas Morais Pires responsabiliza-o.

Embora tenha manifestado algumas reservas em relação ao modelo de governação do grupo, tutelado por Ricardo Salgado, e admitindo que o ex-presidente do BES era conhecedor «dos detalhes», apontou muito mais o dedo a José Maria Ricciardi, numa resposta ao PSD, que nas suas perguntas insistiu bastante na responsabilidade de Salgado. 

«Se calhar o [departamento de] risco não devia na banca de investimento. Para não estar sempre a pôr as perguntas do mesmo lado...». Ou seja, de Salgado. «Se era um homem [Ricciardi] que fazia negócios e investimentos, se calhar também não devia controlar o risco»


Também considerou que, sendo Ricardo Salgado «o responsável máximo do banco», «é natural que fosse informado de todas as situações». De resto, até comandava pelouros que o CFO é que devia gerir

«Devo dizer que na banca os sistemas são presidencialistas. É natural que soubesse. Ele fazia, com muito profissionalismo, as comissões itinerantes. Ia ver os balcões ao detalhe. Não sei qual é o alcance da afirmação de Pedro Queiroz Pereira [de que «nada se fazia sem Salgado»], mas só posso dizer que Ricardo Salgado é uma pessoa informada e que se preocupava com os detalhes».
 

Mas, lá está, quis chamar ao alvo de responsabilidades José Maria Ricciardi. De qualquer modo, já que afinal Morais Pires era o responsável financeiro do BES, ele próprio fez questão de dizer:

«Eu não entrava mudo e saía calado. Pode ler as atas todas. Sempre dei a minha opinião naqulo que achava. O modelo de governance tinha virtudes e defeitos (...) As áreas de controlo, a auditoria, o risco, estavam todas em mãos diferentes do presidente»


Estavam noutras mãos, e as de Ricciardi foram muito enfatizadas pelo ex-CFO. As críticas ao presidente do BES Investimento foram mais longe, com Morais Pires a citar o que o próprio Ricciardi revelou na sua audição,quando alegou que «passava a vida» fora do país, para atestar que não estava fisicamente no BES e, assim, saber de tudo. «Eu não viajo 52 semanas em 47. Não tenho esse poder», atirou.

Ao PSD: «Foi pena que não tivesse perguntado há dois dias»

Quando, Duarte Marques (PSD) lembrou que ele, Morais Pires, era o braço-direito de Salgado, respondeu com uma ironia, dizendo que «podia ser o esquerdo, o mindinho», descolando-se desse rótulo: «Eu não sou um número 2». «Há os donos disto tudo. Eu não sou o faz-tudo». E voltou a assinalar as responsabilidades de Ricciardi, pelos cargos relevantes que desempenhava. 

De resto, sempre que o deputado Duarte Marques fez uma pergunta, Morais Pires respondeu com recados mais ou menos diretos para José Maria Ricciardi. Se a estratégia do PSD parece ser colar Morais Pires a Ricardo Salgado e juntá-los nas responsabilidades, o ex-administrador financeiro do BES parece contrapor com as responsabilidades de Ricciardi, respondendo a uma questão sobre as contas da ESI:
 

«Devia perguntar isso ao [departamento de] risco e foi pena que não o tivesse perguntado há dois dias». «Quando tomámos conhecimento dos problemas da ESI, não foi só um administrador que ficou desapontado. Há maneiras diferentes de reagir». «Quem assinou as atas, está automaticamente responsável»


Antes, já tinha enfatizado, ao deputado do PCP, Miguel Tiago: «Não me venha dizer que era eu que fazia a avaliação de risco». Depois, realçou que a própria auditora KPMG certificou a avaliação feita pelo departamento de risco de Ricciardi. «Catastrófica», respondeu o deputado.

O ex-CFO do BES disse ainda que, para essa avaliação, «certamente» havia acesso às contas da ESI, garantindo que não soube antes do final de 2013 dos problemas.  «Não recebi informação mais cedo, porque havia um colega meu do risco que acompanhava esta situação no dia a dia». Falava de Joaquim Goes, mas não quis responsabilizá-lo apenas a ele.

O ónus da culpa foi sempre para o seu alvo, nesta comissão: a avaliação do risco «era da responsabilidade de José Maria Ricciardi». «Ele era co-responsável com Joaquim Goes». Tinha responsabilidades na ESI, frisou. «Quando tomamos conhecimento dos problemas da ESI não foi só um administrador que ficou desapontado. Há maneiras diferentes de reagir», atirou.

«José Maria Ricciardi como membro da família  tinha muito mais acesso a perceções»


Mesmo quanto ao Novo Banco, mais uma crítica: «Eu tenho a certeza que o BESI tem um empréstimo grande do Novo Banco. Se tem mais crédito do que depósitos, é essa a realidade».

Eurofin: «Não é falta de memória, é segredo de justiça»

Antes do PSD,  tinha sido a vez do Bloco de Esquerda questionar o ex-administrador financeiro do BES sobre uma compra de obrigações, em 2012, em Londres. Um pelouro, esse sim, que era seu.

Segundo a deputada Mariana Mortágua, esta emissão foi «transformada em curto prazo pelo Eurofin e recomprada em 2014, com 66 milhões de perdas para o banco». Como não obtinha respostas, Mariana Mortágua acusou Morais Pires de falta de memória. «Não é uma questão de memória. Não fui eu que desencadeei um processo de crime.

A questão é legal». E voltou a invocar o segredo de justiça para não responder, como já tinha feito antes em relação a um relatório da PwC sobre esse «esquema». 

Em suma, Morais Pires não assume responsabilidades pelo descalabro no GES e no BES. Para além de apontar o dedo a Ricciardi, ao contrário de todos, até aqui, que vinham culpando sempre, mais, Salgado, o ex-administrador do BES culpa o Banco de Portugal. Entende que Carlos Costa é responsável pela «incerteza» no período da transição, em que o próprio Morais Pires podia ter assumido o comando do banco, sem que se protelasse a sucessão de Salgado. E diz que essa «incerteza» gerou «stress», visível na «volatilidade» das ações e na «fuga de depósitos». Ou seja, «o BES não tinha de desaparecer».