O ano que está prestes a terminar fica marcado por dois casos que abalaram o sistema financeiro português, com as suspeitas de cartelizaçãona banca e a disputa pela liderançado Grupo Espírito Santo, que detém o BES.

Ainda durante o primeiro trimestre, a manhã de 06 de março tinha tudo para ser um dia normal de trabalho nas sedes dos principais bancos portugueses. Mas não foi. A chegada de surpresa de equipas constituídas por polícias, juízes, oficiais de justiça e procuradores, exigindo ter acesso a computadores e a trocas de mensagens eletrónicas, deixou os responsáveis das instituições de cabelos em pé.

Em causa estava uma ação concertada entre a Autoridade da Concorrência, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DCIAP) e o Tribunal de Instrução Criminal por suspeita de os bancos portugueses fazerem concertação de preços na definição dos spreads [margem de lucro dos bancos] e nas comissões cobradas aos clientes.

As reações à operação inesperada (que até o Banco de Portugal parecia desconhecer) não se tardaram a suceder, com a Associação Portuguesa de Bancos (APB) a dizer-se surpreendida com a «realização e dimensão» das vinte e cinco buscas.

O mal-estar entre os banqueiros tornou-se ainda maior quando foi noticiado que na origem destas buscas estaria uma denúncia do banco britânico Barclays, cuja sucursal portuguesa, entretanto, deixou mesmo a direção da associação que representa os bancos. Isto, depois de os responsáveis pelo banco em Portugal, entre os quais o presidente Peter Mottek, terem sido suspensos de funções.

O processo continua em investigação e deverá estar concluído apenas em 2015. A demora é explicada pela complexidade da matéria em causa, a que se soma a vasta documentação apreendida que tem que ser analisada antes de haver uma decisão.

Salgado vs Ricciardi

Se o início do ano ficou marcado pelas suspeitas de cartelização na banca, o último trimestre foi agitado pela desavençaentre Ricardo Salgado, líder do Grupo Espírito Santo (GES) e presidente do Banco Espírito Santo (BES), e José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento e administrador do BES.

O episódio em que estalou o verniz entre os primos Espírito Santo foi tornado público pela comunicação social no início de novembro e, depois de uma série de comunicados e encontros entre diversos membros da família, as partes fizeram umas tréguas.

Tudo começou com o relato de uma tentativa de José Maria Ricciardi precipitar a saída de Ricardo Salgado da liderança do GES, que fracassou. Mas, conforme revelou na altura o comandante António Ricciardi, pai de José Maria, a «rutura institucional» do GES esteve iminente.

A 11 de novembro, Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi emitiram uma declaração conjunta anunciando um entendimentosobre o processo de sucessão na liderança no GES.

O presidente do BES reconheceu que José Maria Ricciardi poderá vir a ser o seu substituto à frente dos destinos do GES, ao passo que o líder do BES Investimento apoiou a manutenção de Salgado na presidência do grupo.

Outro acontecimento que marcou 2013, no que toca ao setor financeiro, foi a renúncia de Fernando Faria de Oliveira ao cargo de presidente do conselho de administração da CGD, no final de maio, para se dedicar em exclusivo à liderança da Associação Portuguesa de Bancos (APB).