Morreu Belmiro de Azevedo, o histórico patrão da Sonae, que liderou durante 50 anos. O também maior empregador do país faleceu no hospital CUF do Porto, onde estava internado desde domingo, nos cuidados intensivos. Tinha 79 anos e sofria de doença prolongada.

O primeiro dia como trabalhador do grupo foi a 2 de janeiro de 1965, tinha ele 27 anos. Nessa altura, a Sonae era ainda liderada por Pinto Magalhães. 

Hoje em dia, o grupo é dono dos hipermercados Continente, Worten, Sport Zone, Zippy, Salsa, entre outros, bem como o jornal Público. Fazem ainda parte do grupo os negócios da Sonae Sierra.

De uma infância humilde a milionário

Conhecido por não ter papas na língua e com uma vida recheada de episódios mediáticos, nasceu a 18 de fevereiro de 1938, numa pequena aldeia do Marco de Canaveses, no seio de uma família humilde. Era casado com a farmacêutica Maria Margarida Carvalhais Teixeira e teve três filhos: Duarte Paulo Azevedo, Maria Cláudia Azevedo e Nuno Miguel Azevedo.

Era o terceiro homem mais rico do país e um dos 700 mais ricos do mundo. Tinha uma fortuna estimada em 1,39 mil milhões de euros. 

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Filho de um carpinteiro e de uma costureira que cuidada dos oito filhos, esteve para ficar apenas com a quarta classe, mas acabou por construir um império. 

Foi estudar para o Porto, ficando a cargo de um padrinho. Logo cedo teve de garantir a sua própria subsistência, quando o padrinho faleceu.

Destacou-se nos estudos e, à custa de muitas explicações de química e matemática, chegou à faculdade de engenharia do Porto. Em 1964, completou a licenciatura em Engenharia Química com 16 valores. Aprendeu contabilidade com livro O Guarda Livros sem Mestre.

A chegada à Sonae

Ingressou na Sonae - uma sociedade nacional de estratificados, empresa em dificuldades económicas e financeiras. Em pouco tempo, subiu à direção.

Implementou novas estratégias e, em 1973, por sentir um défice de formação na área da gestão empresarial partiu para Harvard, nos Estados Unidos, onde se especializou.

Pouco depois tomou conta do negócio, enquanto o dono Afonso Pinto de Magalhães esteve exilado no Brasil com a família.

Em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso) houve uma curiosa contra-greve, quando os trabalhadores se juntaram ao patronato para manter a empresa privada, quando parte do que pertencia ao banqueiro Pinto de Magalhães passou para as mãos do Estado.

Foi em 1982 que o fundador ofereceu 16% da Sonae a Belmiro de Azevedo. Depois da sua morte, Azevedo atingiu a maioria do capital.

Após uma longa batalha judicial com a família do antigo dono da Sonae, os filhos Pinto de Magalhães desistem do processo, dando assim o controlo da Sonae a Belmiro.

O primeiro hipermercado Continente

É na década de 80 que a Sonae se lança no mercado de capitais e, em 1985, abre o primeiro hipermercado Continente, em Matosinhos.

A distribuição torna-se o motor de um grupo que neste setor encontrou o músculo financeiro para singrar.

A crispação com Sócrates

Antes da dura batalha que travou com o Governo de José Sócrates, chegou a ser ao lado do socialista que implodiu as torres da Torralta para em Tróia fazer nascer empreendimentos turísticos de luxo. Mas os sorrisos entre os dois rapidamente se desvaneceram.

Belmiro sempre foi hostil com o poder político, do PSD ao PS e a crispação com o Governo PS agigantou-se no desaire da OPA da Sonae à PT. Belmiro nunca perdoou a Sócrates ter ordenado a Caixa Geral de Depósitos a inviabilizar o negócio.

O adeus à gestão executiva

Apesar de em 2007 deixar a gestão executiva do grupo ao filho, Paulo Azevedo, manteve-se à frente da Sonae Capital e presidente do consleho de administração da Sonae Industria e da holding mãe.

Mas esteve sempre por perto dos negócios e, sete anos depois, a Sonaecom consegue um acordo para a fusão da Optimus e da Zon.

Foi também em 2014, com a derrota da PT meia-vingada pela criação da NOS, que anunciou que iria deixar o mundo dos negócios.

A 30 de abril de 2015, com 77 anos, deixou então o Conselho de Administração da Sonae.

Depois de deixar a presidência, Belmiro não se afastou, contudo, de vez dos interesses do grupo Sonae. Manteve-se como acionista. Deixou um império.

Foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem do Infante D.Henrique em 2006.

O velório realizar-se na Paróquia de Cristo Rei, no Porto, a partir das 20 horas. A missa de corpo presente decorrerá no mesmo local, quinta-feira, dia 30, às 16 horas, seguida de uma cerimónia fúnebre reservada à família.